Domingo

Ficha técnica


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País


Sinopse

1o de janeiro de 2003. A família da matriarca Laura organiza o churrasco de Ano Novo em sua casa de campo, que já viveu melhores dias. Parentes e amigos vão chegando e os incidentes vão se sucedendo. Enquanto isso, a empregada Inês acompanha pela TV a posse do novo presidente, Luís Inácio Lula da Silva.


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Crítica Cineweb

25/09/2019

Dialogando com outros filmes nacionais que enfocaram a realidade recente do Brasil, Domingo, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa (este o autor de Casa Grande e Gabriel e a Montanha), cumpre bem seu propósito de botar sua colher neste imenso caldeirão efervescente do Brasil.  
 
O ponto de partida de Domingo, ambientado no interior gaúcho (foi filmado em Pelotas), foi um roteiro de Lucas Paraíso (roteirista do drama Aos teus olhos) que veio sendo desenvolvido desde 2005. Como o filme se situa temporalmente no dia da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 1 de janeiro de 2003, compreensivelmente passou por diversas mudanças, tentando acompanhar um contexto político cada vez mais imprevisível. No Brasil, especialmente, a realidade é muito mais alucinada do que a ficção. 
 
Construído em torno de improvisações, celebradas por longos planos-sequências, este é um filme-coral que disseca relações de poder, não raro permeadas por rituais de crueldade. Elas estão no primeiro plano na história, que acompanha a realização de um churrasco de Ano Novo, reunindo duas famílias, a dos donos de uma grande casa decadente, a matriarca Laura (Ittala Nandi), seu filho Nestor (Arnaldo Madeira), a mulher Bete (Camila Morgado), seus filhos adolescentes e o outro filho, Miguel (Ismael Cannepelle),  e também a de um de seus empregados, Eduardo (Michael Wahrmann), sua mulher, Eliana (Martha Nowill), gravidíssima, e seus filhos. Em torno deles, os empregados domésticos Inês (Silvana Sílvia), sua filha Rita (Maria Vitória Valença) e José (Clemente Viscaíno), um velho sem família cuja vida gira inteiramente em torno destes patrões.
 
A posse de Lula é acompanhada, pela televisão, de tempos em tempos, pela empregada Inês, sem que os patrões, aparentemente, tomem muito conhecimento daquele cerimonial que se passa em Brasília. Nas entrelinhas, é visível que não é nada disso - os donos da casa estão inquietos com o que pode mudar com a chegada deste novo presidente, que dona Laura chama de “comunista”. 
 
Na casa rural decadente, cujas paredes escancaram um passado de melhores dias e afeição pelo imobilismo, prepara-se o cenário para situações de conflito, deflagradas por uma fita de vídeo indiscreta caída nas mãos de adolescentes com hormônios à toda, uma caixinha de cocaína guardada num armário, a chegada de um jovem professor de tênis (Chay Suede), uma tempestade e o parto iminente de Eliana - tudo isso embalado por brigas de casal, ciúmes, disputas, negociações, ameaças de escândalo. 
 
Há um humor cínico e muita fina observação neste encadeamento do jogo de tantos personagens, que os diretores conduzem com afinco. É um dos melhores papeis da vida de Camila Morgado, que se entrega sem pudor a uma figura contraditória e engraçada com a qual é impossível não simpatizar. O que há de melhor em Domingo é justamente essa sua riqueza de camadas, de filigranas, de exasperações, delicadezas, esperanças perdidas e reencontradas. 
 
Hoje, diante de tudo o que aconteceu desde 2003, o filme terá,certamente, outras leituras além daquela pretendida, a princípio, como um mergulho nos valores de uma certa elite, como Barbosa fez em Casa Grande. Os dois filmes são inegavelmente parentes um do outro, embora o tom de Domingo aponte mais para uma ruptura iminente do que para a reconciliação que Casa Grande parecia celebrar. De todo modo, Domingo é um filme de uma época recente que remete à nossa, como faz, numa chave futurista Bacurau, de Kléber Mendonça Filho, num tom diferente mas igualmente instigante para pensar em quem somos, quem nos tornamos e quem queremos ser como país. 

Neusa Barbosa


Trailer


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