Ad Astra - Rumo às estrelas

Ficha técnica


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Sinopse

Astronauta de primeira linha, o major Roy McBride é convocado para tentar contato com seu pai, o astronauta Clifford McBride, que há anos se perdeu numa missão em Netuno e foi dado como morto, assim como sua tripulação. Quanto mais avança, mais Roy percebe que há segredos mal-explicados em sua missão.


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Crítica Cineweb

14/08/2019

Então, James Gray vai ao espaço, mas leva na bagagem a sua habitual temática, contrapondo pai e filho num cenário que permite discutir também a loucura da civilização, da ciência e até o sentido da vida. É, mais uma vez, esta a tarefa a que se propõe o diretor de Z - A Cidade Perdida e Os Donos da Noite, contando com Brad Pitt como produtor a escorá-lo em seu projeto, além de garantir para ele um papel de protagonista em que revela nuances de interpretação de uma sutileza exemplar.
 
Seu astronauta, o major Roy McBride, é uma figura solidamente amarrada num conceito de profissionalismo extremo, que sufoca uma sensibilidade que ele nunca deixa emergir. Por conta disso, não consegue manter vínculos pessoais, como com a mulher (Liv Tyler), que cansou de ser uma presença fantasmagórica na vida dele.
 
A modulação de voz de Brad Pitt neste papel, em constante solilóquio consigo mesmo, remete a A Árvore da Vida, de Terrence Malick - com o qual este filme tem um remoto parentesco, nesta indagação de um homem a si mesmo sobre os rumos de sua existência. Até agora, Roy se conformou com o rígido protocolo militar, sobrevivendo, controlado e infalível, a perigos extremos. Seu turbilhão interior, no entanto, é de alta temperatura.
 
O fantasma de um pai ausente, astronauta e militar como ele. H. Clifford McBride (Tommy Lee Jones), paira sobre ele de várias formas - como um modelo que ele quer alcançar, o buraco negro de um afeto que ele tenta superar e mais ainda. Roy é um espelho desse pai que, desaparecido numa importante missão em busca de vida inteligente no espaço, é um heroi sob medida para a grandiloquência dos discursos patrióticos que garantem a continuidade da empresa espacial, a Space Co.
 
Essa vertente da sustentação de uma narrativa social que encobre falsificações dirigidas a interesses escusos é um dos caminhos que o roteiro, assinado por Gray e Ethon Gross, delineia como pano de fundo, mas não sobrepõe a saga intimista que pretende desenvolver. A espinha dorsal é a viagem a que Roy será convocado à procura do pai, que se descobre que pode estar vivo nas cercanias de Netuno. Uma jornada que põe à prova os limites de seu autocontrole, diante da probabilidade real de um acerto de contas emocional cara a cara com esta figura tão próxima e tão alheia.
 
Confrontos pai-filho desta natureza abundam e não só na obra de Gray - um verdadeiro obcecado pelo tema, é verdade. A peculiaridade deste filme é sua ambientação no cenário desértico do espaço, onde, a começar pela lei da gravidade, tudo é diferente da Terra. Neste campo de provas para toda espécie de técnica e de utopia humana, Ad Astra joga com a inevitabilidade de certas relações que a natureza humana não consegue contornar. 
 
Os valores técnicos do filme, como a fotografia de Hoyte van Hoytema e a trilha de Max Richter, jogam muito a favor deste estranhamento indispensável a uma história envolvendo astronautas, situada em futuro próximo. A alta tecnologia habita estes fotogramas, mas não se perde de vista a sua conexão imediata com as limitações humanas.
 
Algumas cenas de perigo - uma perseguição por piratas, um ataque animal, uma luta dentro de uma nave - quebram, de quando em quando, essa placidez que contos no espaço invocam. Mas tudo isso parece apenas ruído. A grande batalha se dá, afinal, dentro do coração do homem - e homem como indivíduo masculino mesmo, já que as mulheres têm intervenção mínima por aqui. A mãe de Roy é brevemente mencionada, sua mulher é uma figura com poucas falas e uma comandante de base, Helen Lantos (Ruth Negga), é uma personagem que se desejaria presente por mais tempo na tela. Mas personagens femininas nunca foram mesmo o forte de Gray.

Neusa Barbosa


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