Peterloo

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País


Sinopse

Em 1819, milhares de pessoas se reuniram num protesto pacífico em Manchester a favor da democracia. O governo britânico, no entanto, mandou que seu exército atacasse os manifestantes, resultando num episódio sangrento da história do país.


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Crítica Cineweb

06/08/2019

Filmes sobre acontecimentos históricos geralmente usam o passado para comentar o presente, mas nem sempre são bem sucedidos em seus intentos. A ponte entre os dois momentos acaba se perdendo em meio à pompa e circunstância. Raros são os casos como Peterloo, do inglês Mike Leigh, que investigam o passado e jogam uma luz sobre o presente, mostrando que pouca coisa – às vezes, nada – mudou.
 
O massacre no St Peter’s Field, dois séculos atrás, é, praticamente, um episódio um tanto negligenciado da história da Inglaterra. Mas Leigh, trabalhando com um roteiro assinado por ele – com assistência da historiadora Jacqueline Riding –, realiza um épico histórico e político que tem o poder de corrigir essa lacuna. Filme após filme, o diretor é um cronista da classe trabalhadora de seu país. Seus personagens são pessoas sem muito dinheiro lutando por uma vida mais digna. Suas obras – como Segredos e mentiras e Agora ou nunca – são mais sutis do que as do seu conterrâneo Ken Loach, que trabalha com os mesmos temas, sendo cada um eficiente à sua maneira. Mas nada que Leigh tenha feito até então nos preparou para Peterloo – um manifesto político de quase três horas, cuja narrativa acompanha a organização da manifestação pacífica pela democracia em Manchester, uma das cidades que abrigava um grande números de fábricas e operários.
 
Leigh compõe o filme seguindo diversos grupos que organizaram e participaram do evento, que aconteceu numa segunda-feira – motivo de reclamação para os donos do poder, que chamaram os manifestantes de vagabundos, por fazerem um protesto em dia útil. O viés tomado pelo diretor é a intersecção entre as vidas pessoais de vários personagens e uma grande fratura na narrativa histórica que aquele dia viria a se tornar. O longa abre com o fim da Batalha de Waterloo e entra em cena Joseph (David Moorst), jovem sobrevivente do confronto, que volta para casa com estresse pós-traumático – embora, é claro, essa condição ainda não tivesse um nome – e cuja trajetória guia, de certa forma, a trama. É a história de um homem comum achatado pelo trator da História – tema recorrente em Leigh.
 
Diversos habitantes de Manchester tomam a cena, desde jornalistas de um pequeno jornal opositor, até os operários e operárias. Uma das cenas mais bonitas mostra a reunião da Sociedade de Mulheres Reformistas de Manchester. Feministas avant la lettre e protossufragistas, elas lutam não por direitos iguais – isso seria pedir demais – mas por, ao menos alguns direitos. É nesse encontro que sai uma das falas mais potentes do filme: “A taça amarga da opressão está a ponto de transbordar”. Uma das demandas do protesto era o direito de voto para todos os homens – um voto por família – e um representante para a região no parlamento, embora os motivos para se protestar fossem bem maiores, como especialmente a arbitrariedade da justiça que condenava pessoas por qualquer ameaça à propriedade, como mostra o filme.
 
As poucas reivindicações foram demais para os donos do poder – ainda com o fantasma da Revolução Francesa pairando sobre eles – que assistiam ao protesto e o posterior massacre de longe, zombando dos trabalhadores e incitando a cavalaria inglesa a atacar. Estima-se que 18 pessoas foram mortas e mais de 600 feridas. Em cima de seus cavalos e armados, os soldados partiam especialmente para cima de mulheres e crianças – todos desarmados, sendo que uma das principais ações dos organizadores foi limpar todo o campo antes do protesto para que não houvesse nem uma pedra que pudesse ser usada e servisse de pretexto para a cavalaria atacar. Como se sabe, toda essa precaução não ajudou.
 
Trabalhando com Dick Pope – diretor de fotografia de seus longas desde o começo dos anos de 1990 –, e Suzie Davies Jacqueline Durran, que assinam desenho de produção e figurino, Leigh cria um mosaico que culmina no grande acontecimento, filmado com a poesia e melancolia de um réquiem pelas vidas perdidas em nome da democracia. Embora entrem em cena as grandes figuras históricas – em especial, o orador Henry Hunt (Rory Kinnear), um exímio agitador político dado ao estrelismo, que discursava quando começaram os ataques –, o que interessa em Peterloo são as pessoas comuns. O elenco, composto de atores e atrizes praticamente desconhecidos, contribui para dar essa dimensão de gente como a gente, num momento de agitação política.
 
A narrativa, por sua vez, é construída como um romance do século XIX, e, embora Tolstói e Dickens sejam os primeiros a vir à mente, a dimensão política e profundidade do longa estão bem próximas de um romance pouco conhecido da inglesa George Elliot, Felix Holt, de 1866. Leigh capta um momento de profunda transformação histórica, quando o campo perdia espaço para a cidade e seus habitantes tomavam uma nova consciência, entre outras coisas, da percepção do tempo. Já não era mais o movimento da natureza que marcava os meses, os anos, mas o relógio que ditava as horas.
 
Leigh assume claramente o ponto de vista dessas pessoas. Sua simpatia, o que não é surpresa, está ao lado dos oprimidos, de Joseph, sua mãe e pai (Maxine Peake e Pearce Quigley), da vendedora que troca ovos por um pedaço de torta – mais para ajudar a freguesa do que para aplacar sua fome –, das mulheres reunidas discutindo um futuro melhor. Ele poderia cair num sentimentalismo, mas o filme evita essa armadilha. Ao final, Peterloo nada mais é do que um espelho de nosso presente, mostrando que as coisas mudaram apenas para continuar as mesmas. 

Alysson Oliveira


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