Inocência roubada

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País


Sinopse

Por anos, a menina Odette sofreu os abusos de Gilbert Miguié, o melhor amigo de seus pais, Mado e Fabrice, convivendo com todos eles, ao lado de sua própria mulher e filhos. Adulta, Odette torna-se bailarina em Paris, mas carrega as marcas do sofrimento sufocado. Os encontros com uma terapeuta ajudam-na a começar a enfrentar os traumas.


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Crítica Cineweb

03/07/2019

Lidando com um tema duro, o abuso sexual na infância, o drama francês Inocência Roubada tem como maior qualidade a capacidade de colocar seus espectadores realmente na pele da vítima, Odette (Andréa Bescond). Co-diretora e co-roteirista, ao lado do marido, o ator Éric Métayer, Andréa leva às telas uma história dolorosa, de fundo autobiográfico e que já havia sido encenada como uma peça de teatro de grande sucesso, a partir de sua estreia, no Festival de Avignon, em 2014. 
 
Assim, somos levados a compartilhar o sofrimento e as marcas indeléveis que Odette (quando criança, interpretada por Cyrille Mairesse) carrega pela vida, depois de ter sido, por anos, molestada sexualmente por um dos melhores amigos de seus pais, Gilbert Miguié (Pierre Deladonchamps).
 
A pouca idade de Odette (8 anos) e a grande intimidade de Gilbert com seus pais, Mado (Karin Viard) e Fabrice (Clovis Cornillac), colocam a menina numa grande armadilha, da qual ela não consegue sair - não tem coragem de denunciar os avanços dele, um homem afável que ganhou a confiança de seus pais, inclusive para buscá-la eventualmente na escola e levá-la consigo em férias, junto com a mulher e os filhos dele.
 
Ninguém imagina o pesadelo da menina, que cresce e vai seguir carreira de bailarina em Paris, depois de conseguir uma bolsa no conservatório. Adulta, ela é bem-sucedida na carreira, mas desafoga os traumas do sofrimento sufocado em surtos de comportamentos autodestrutivos. Ela jamais se abriu com alguém a esse respeito até o dia em que, num impulso, entra pela porta do consultório de uma psicóloga (Carole Franck).
 
Uma outra qualidade do filme, primeira experiência na direção cinematográfica de Andréa e Éric Métayer (que faz um pequeno papel como professor do conservatório), é a maneira como rompem a narrativa com licenças típicas do teatro, com cenários superpostos para introduzir flashbacks e números de dança, recursos que injetam energia na história, evitando que se torne excessivamente gráfica ou sombria. A dança, especialmente, entra como elemento narrativo e emocional, como ferramenta para expressar a torrente de emoções represadas da protagonista, que através dessa linguagem não-verbal é capaz de articular o indizível.
 
A fragmentação cronológica também serve como um modelo da própria memória, gradativamente recuperada por Odette em suas sessões de terapia - sem transformar o filme num grande drama psicológico, muito menos num drama de tribunal, embora inclua situações que tangenciam ambos os aspectos.
 
Na pele dos pais, Karin Viard (premiada com o César de coadjuvante) e Clovis Cornillac, simbolizam a contento reações muito comuns, quando finalmente são expostos à denúncia da filha - incredulidade, negação, culpa, auto-piedade, desejo de vingança. Outro acerto é retratá-los de uma forma que não os desumaniza, mantendo o enraizamento da história num genuíno e necessário enfrentamento com um tema inadiável. Somente na França, segundo os diretores comentam no material de divulgação do filme, mais de 150.000 crianças sofrem abusos sexuais anualmente. 
 
Inocência Roubada participou da seleção da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2018, vencendo o prêmio para novos diretores do Festival de Chicago, além de premiações nos festivais de Hamburgo e Deauville.

Neusa Barbosa


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