Abaixo a gravidade

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Sinopse

O velho Bené vive no interior baiano, dedicado ao plantio de seus legumes orgânicos e às práticas do hinduísmo e do candomblé, ajudando os moradores da região com seus conselhos. Um dia, chega à sua porta a jovem Letícia, grávida e fugindo de um relacionamento instável. Os dois se tornam amigos, até o dia em que ela decide voltar a Salvador. Ele, que tem problemas de saúde, resolve ir também.


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Crítica Cineweb

05/06/2019

Em tempos obscuros, é bom falar de claridade, até para que o conceito não se desvaneça. Abaixo a gravidade, de Edgard Navarro, é um bom exemplar desse tipo de filme que ignora fronteiras de gênero e se aventura com liberdade pelos caminhos de uma história em torno de pessoas e suas experiências. Simples assim.
 
Diretor do cult Superoutro (1989) e do premiado Eu me Lembro (2005), o baiano Navarro é uma espécie de último hippie do cinema, injetando no protagonista aqui, o velho Bené (o esplêndido Everaldo Pontes) uma sábia fusão das paixões da contracultura. Bené vive num sítio numa pequena cidade da Chapada Diamantina, onde planta seus legumes sem agrotóxicos e cultiva sua peculiar espécie de misticismo, que une candomblé e hinduísmo.  
 
As práticas sadias não o protegem do envelhecimento e dos sintomas de que alguma doença está se infiltrando em seu corpo esguio. Entra um dia por sua porta a jovem Letícia (Rita Carelli), grávida e sozinha, que o atinge como uma lufada de desejo. Contendo seu encantamento, Bené torna-se para ela uma espécie de figura paterna, fazendo seu parto e dividindo confidências com a moça, mãe solteira. A partida dela para Salvador sacode o velho, que decide acompanhá-la à capital baiana também ao encontro dos inadiáveis exames médicos.
 
Caminhando pelas ruas de Salvador, Bené permite que Navarro exerça seu lado documentarista, mostrando a bela e antiga cidade corroída por camadas de abandono nos bairros pobres, mas, ainda assim, rica de povo. São muito vivas as figuras populares como a mulher que canta para vender seus pirulitos, mas principalmente o furibundo Galego (Ramon Vane), morador de rua que vocifera contra as tentativas de aproximação de Bené, e o delirante mendigo que fabrica continuamente asas para um projeto de vôo (Fábio Vidal).
 
Não funciona tão bem a trama paralela, contrapondo a Bené o executivo Eugênio (Bertrand Duarte), igualmente sofrendo de uma doença e, ao contrário do velho, completamente dominado pelos rituais do trabalho, do consumo e de um egocentrismo revelado a um exaurido psicoterapeuta. Da mesma forma, a dualidade num certo momento assumida pela personagem vivida por Rita Carelli nem é clara nem se encaixa fluidamente na história de Bené.

De todo modo, os atores Everaldo e Rita se completam num diálogo, inclusive físico, sobre os limites da existência - velhice/juventude, vida/morte - no contexto da iminente passagem de um asteroide, que abalará a gravidade na região da Baía de Todos os Santos. Nestas interações de Bené com outros personagens é que o filme expressa melhor seu retrato de um Brasil brejeiro, de leveza, de amor, de sonho contrapondo-se à brutalidade de ruas sujas e de pessoas abandonadas que, ainda assim, afirmam como podem seu direito à existência.

Entremeando a narrativa, bem-vindas homenagens cinematográficas a A Doce Vida (cena do helicóptero carregando uma estátua), Glauber Rocha (sequência final que lembra o epílogo de Deus e o Diabo na Terra do Sol), além da homenagem nominal aos diretores Carlos Reichenbach, Andrea Tonacci e Luiz Paulino dos Santos, irmãos de fé de Navarro na expressão de um cinema libertário e amoroso com seus personagens miúdos. 

Neusa Barbosa


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