Vidas duplas

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Sinopse

Alain e Léonard são amigos. Um edita os livros do outro, porém, um novo manuscrito coloca em risco a amizade, deflagrando uma série de encontros, desencontros e segredos que ameaçam vir à tona.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

10/04/2019

A certa altura deste novo filme do francês Olivier Assayas, alguém cita a famosa frase de O Leopardo: “As coisas precisam mudar para continuarem as mesmas”. Esta é a ideia central aqui, embora o filme francês desloque a frase da política para o plano pessoal dos personagens. Se há alguma política aqui, é a dança do mercado editorial, cada vez menos interessado em literatura e ainda menos em livros impressos.
 
Ao centro desta que é também comédia de costumes, estão dois casais e um romance entre eles. Alain (Guillaume Canet) é um editor, Leonard (Vincent Macaigne), um escritor que nunca obteve grande sucesso mas vendia mais ou menos. Mas seu novo trabalho, com o curioso título de Ponto final, não é aceito por Alain. Cada um deles é casado.: Selena (Juliette Binoche) é mulher do editor, atriz que encontrou sucesso numa série policial de TV; Valérie (Nora Hamzawi, uma revelação) é mulher do escritor, um tanto distante do mundo das letras.
 
Uma das questões centrais em Vidas duplas é a maneira como a alta cultura e a de massas se interconectam – uma depende da outra, mas as coisas precisam mudar para nenhuma das duas desapareça. O romance (supostamente) sofisticado de Leonard e a série de televisão popular de Selena, embora isso não seja escancarado, dependem um do outro para existir. No filme, isto é espelhado pelos casos dos personagens. Leonard tem um affair com Selena e Alain com uma funcionária (Christa Théret), que cuida da transição dos livros da editora para o formato digital.
 
O filme é extremamente falado e o roteiro – também assinado por Assayas – é sutil na sua construção, embora custe um tanto a engrenar. A discussão inicial, entre o editor e o romancista, é longa e um tanto impenetrável – possivelmente de propósito —, e só termina quando Leonard descobre que seu livro não será publicado. Embora, no começo seja um tanto complicado para o público achar seu caminho no longa, quando, finalmente, isso acontece, Vidas duplas é preciso, pois evita esquematismos rasos e resoluções fáceis. Seus personagens são reais – o que pode gerar uma brincadeira com o romance que, revela-se depois, é de autoficção - um subgênero na moda, especialmente no Brasil. Leonard colocou, disfarçadamente, sua vida lá, inclusive a amante, que é mulher de seu editor. E há também alguns momentos hilários dentro do filme – especialmente envolvendo algumas menções a A fita branca e à própria Binoche.
 
A referência à fala de O leopardo – que, ao contrário do que acreditam os personagens aqui, não é no final do livro – pode ser a chave de compreensão. O romance italiano – adaptado para o cinema por Luchino Visconti – é sobre um mundo em vias de transformação, figuras que resistem a essa e outras que se deixam levar. Esse é o dilema que faz a roda da história mundial se mover – e, nesse sentido, Vidas duplas é um filme para o nosso tempo.

Alysson Oliveira


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