Em Trânsito

Ficha técnica


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País


Sinopse

Tentando fugir da França ocupada por nazistas, um alemão encontra os documentos de um escritor que se matou e assume a identidade do homem. Em Marselha, enquanto espera para sair do país, encontra a mulher do homem cuja identidade ele assumiu.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

03/04/2019

Em trânsito, do alemão Christian Petzold, é em vários momentos um filme daqueles estranhamentos puramente freudianos – a desfamiliarização do familiar. Aparentemente, estamos diante de mais um drama de guerra, de uma França ocupada por nazistas, e de onde o protagonista tenta fugir para os EUA. O diretor, que assina o roteiro a partir do romance de 1942 de Anna Seghers, segue esses pressupostos até o momento em que as coisas deixam de ser exatamente o que pareciam.
 
É uma aposta arriscada de Petzold, que pode alienar parte do público e demanda atenção e empenho daqueles que entrarem no seu jogo. Mas o jogo funciona – e como funciona! Pode parecer algo saído das páginas de Philip K. Dick – especialmente de seu O homem do castelo alto – e daquilo que, na ficção científica, convencionou-se chamar história alternativa. Elementos estranhos em cena causam uma confusão propositada ao fazer um movimento entre passado e presente. Aqui, ambos mediados por traumas históricos – um, de certa forma, encerrado, e outro em andamento.
 
O protagonista é Georg (Franz Rogowski, um alemão cujas feições lembram Joaquin Phoenix), refugiado que consegue os documentos de um escritor que se matou num hotel na França. Os soldados nazistas invadiram o país, mas ainda não passaram de Lyon. Enquanto isso, na cidade portuária de Marselha, pessoas tentam conseguir os vistos para ir para o Novo Mundo. O protagonista, por acidente, é tomado pelo escritor quando está no Consulado do México e, vendo vantagem, ele assume essa identidade. Porém, isso não é tão simples, pois o morto tem uma mulher, Marie (Paula Beer), que o abandonou, e agora mora nessa mesma cidade com um novo companheiro, um médico (Godehard Giese), também refugiado.
 
Um lugar cheio de gente e que sempre parece seco, Marselha é mais um purgatório onde os personagens esperam cumprir o seu destino do que uma cidade. E lá Georg encontra Marie e arma-se um triângulo amoroso, pois ele se apaixona por ela também – tal qual o homem cuja identidade assumiu. Identidade, aliás, é uma questão aqui – assim como em outros filmes do diretor, que começa sua narrativa de maneira oblíqua, mas, aos poucos, as peças vão encontrando o seu devido lugar no tabuleiro.
 
Conforme a narrativa progride – sempre enquadrada do ponto de vista de um personagem ausente durante a maior parte do tempo -, as coisas se complicam. Petzold parece apontar que certos temas são perenes na história da Europa: os refugiados ou, indo além, são consequências de algo bem maior que permanece numa história de exploração e imperialismos. O trânsito que o filme faz entre passado e presente é sempre ressaltado por questões de classe e raça – aqui, figurado na presença de um menino (o incrível Lilien Batman), filho de um antigo colega de Georg, que mora no gueto de refugiados do Magreb em Marselha.
 
Tudo – evidenciado pela fotografia de Hans Fromm, que ressalta tons de marrom e ocre, e a direção de arte de K.D. Gruber – ressalta como as mazelas do passado persistem no presente e, em mãos menos talentosas do que Petzold, isso soaria um tanto forçado ou até oportunista. Mas é incrível como o diretor organicamente conjura o passado no presente e vice-versa, falando do mundo contemporâneo, como o herdeiro do fracasso dos projetos de civilização que vieram antes de nós. Em mãos menos habilidosas, “Road to nowhere”, do Talking Heads, explodindo nos autofalantes nos créditos finais soaria deslocada – aqui, parece não haver música mais perfeita para encerrar o filme.  

Alysson Oliveira


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