Suspíria - A dança do medo

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Sinopse

Susie é uma jovem americana, aceita numa prestigiosa academia de dança na Berlim dividida do final dos anos de 1970. Ela acaba se destacando, sendo escolhida para protagonizar num balé complexo, o que pode lhe trazer consequências assustadoras.


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Crítica Cineweb

27/02/2019

Em Suspíria - A dança do medo, Dakota Johnson interpreta um outro tipo de ingênua, diferente daquela que a alçou ao estrelato com Cinquenta tons de cinza. Se Anastasia perdia a inocência em sessões de sadomasoquismo, o amadurecimento de Susie aqui será por meio da dança. Criada numa comunidade menonita, nos EUA, ao chegar na Berlim dividida do final dos anos de 1970, a moça surpreende a diretora de dança de uma conceituada academia. Ela é a austera Madame Blanc (Tilda Swinton, encarnando uma espécie de Marina Abramovick, como fez com um tipo à David Bowie em Um mergulho no passado), que aceita a aluna sem pestanejar.
 
É bom deixar logo claro que não se trata de um remake do clássico de 1977 homônimo de Dario Argento, escrito por ele e sua mulher na época, Daria Nicolodi. Roteirizado por David Kajganich, e dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, este é um filme com o mesmo ponto de partida, mas que toma outros caminhos (que, às vezes, se cruzam com o original). É outra interpretação de uma história a partir de outra estética, outras escolhas narrativas. Aqui, estamos mais próximos do terreno semeado por Rainer Werner Fassbinder do que do próprio Argento. E a presença de Ingrid Caven no elenco é uma piscadela para o cineasta alemão.
 
Guadagnino constrói seu Suspíria com um rigor técnico e visual que beira a claustrofobia, o que é bastante coerente dentro da asfixia emocional pela qual passam as personagens, que, cada uma ao seu modo, parecem as mulheres fortes dos filmes de Fassbinder. Em comum também, a fotografia assinada pelo tailandês Sayombhu Mukdeeprom (da trilogia As mil e uma noites, Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas), que, obviamente, não tenta emular aquelas famosas de Michael Ballhaus e Xaver Schwarzenberger, mas criar variações a partir delas. Berlim não poderia ser mais fassbinderiana, com uma chuva incessante e carros explodindo a todo momento, enquanto o grupo Baader-Meinhof sequestra um avião, negociando a liberdade de presos políticos.
 
É neste cenário que Susie chega à academia de dança e já consegue o posto de estrela como protagonista de um complicadíssimo balé, “Volk”, criado por Madame Blanc, que demanda física e emocionalmente de suas bailarinas, cujas vestimentas vermelhas são feitas de tiras que parecem sangue escorrendo. Não é de surpreender, é claro, que a dança seja um elemento de vida e morte no filme. As coreografias criadas pelo belga Damien Jalet enfatizam essa dialética, enfatizando uma tensão entre a experiência e a inocência. A primeira grande cena do filme é a dança de morte de Olga (Elena Fokina), que tenta fugir da escola, incapaz de protagonizar “Volk”.
 
Mais sorte, aparentemente, teve Patricia (Chloë Grace Moretz), aluna que fugiu e, no prólogo do filme, emocionalmente perturbada, procura ajuda de seu psicanalista, Dr. Klemperer (Lutz Ebersdorf, que, na verdade, é novamente Swinton, sob uma maquiagem pesada). A garota desaparece, dizem que se uniu a terroristas e vive na clandestinidade, mas seu fantasma paira sobre o filme - e não é o único. O passado nazista da Alemanha é uma ferida aberta – embora a maioria aqui o trate como inexistente. Suspíria é um filme sobre encarar o passado histórico de frente, seus demônios e bruxas, para que possam ser derrotados.
 
O horror se dá em dois planos: o histórico e o pessoal, e, como no recente Nós, o corpo humano torna-se o palco do horror, atingindo notas viscerais, reais e metafóricas. O corpo, no caso, é (exceto por uma breve cena) o feminino, é onde se dá o desejo e a disputa, tomado como uma espécie de invólucro da alma. Ao longo da narrativa, pequenas cenas dão conta da morte da mãe (Malgorzata Bela) de Susie, um corpo que deixa de existir, mas que, mais tarde, voltará ao filme em outra forma.
 
Povoado quase que exclusivamente por mulheres (até o principal personagem masculino é feito por uma atriz), Suspíria é As lágrimas de Petra von Kant do horror. Não há sustos, nem medos aqui, e os fãs do gore deverão ficar decepcionados – não que não haja sangue, até há, e em abundância, mas sem o fetiche do gênero. O sangue é melancólico e escorre na cadência da trilha sonora excepcional de Thom Yorke (como não foi indicado ao Oscar de trilha e música original é um mistério), cuja canção “Suspirium” começa assim: “Essa é uma valsa pensando no nosso corpo/ o que significam para nossa salvação.”
 
“Volk”, uma palavra que tem a ver com a mitologia criada pelo nazismo para o passado da Alemanha, é uma dança com passos duros, que parece sangrar os traumas históricos. Nesse sentido, Klemperer é um personagem emblemático, cujo silêncio custou a vida de sua mulher (Jessica Harper, a Susie do Suspíria original). O trauma do nazismo ecoa no terror do presente do filme e no nosso – alguns males jamais serão superados. E a academia de dança de Helena Markos sobreviveu a todos esses momentos – tal qual uma entidade imortal. 

Alysson Oliveira


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