Um elefante sentado quieto

Um elefante sentado quieto

Ficha técnica

  • Nome: Um elefante sentado quieto
  • Nome Original: Da xiang xi di er zuo
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: China
  • Ano de produção: 2018
  • Gênero: Drama
  • Duração: 230 min
  • Classificação: 14 anos
  • Direção: Hu Bo
  • Elenco: Wang Yu-Wen, Chang Peng Yu, Congxi Liu

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Sinopse

Tentando defender um amigo, o jovem Wei Bu, provoca um acidente com o valentão de sua escola, irmão de um gângster. Sua amiga, Huang Ling, vive um caso proibido com o vice-diretor da escola. E o velho Wang Jing, apesar de saudável, sofre pressão de sua família para ir morar num asilo.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

19/02/2019

Há um indiscutível senso de urgência que percorre as imagens, às vezes dilatadas, deste filme, que marca a estreia em longas do jovem diretor chinês Hu Bo – premiado com o troféu Fipresci no Festival de Berlim 2018, entre outros festivais.
 
Bo vinha seguindo uma carreira promissora, entre o cinema e a literatura – aqui adapta uma de suas próprias histórias – quando se suicidou, no final de 2017, com apenas 29 anos. Impossível não pensar nisso quando se acompanha a saga atormentada de seus personagens no filme, quase todos jovens como ele,
mergulhados numa realidade opressiva e intoxicante, despida de utopias, na China contemporânea.
 
A primeira sequência termina, justamente, com um suicídio. Um casal está num apartamento quando chega o marido da moça. O homem que ali estava, Yu Cheng (Yu Zhang), se esconde. Mas logo o outro entra no quarto e o vê. Eles se conhecem, mas a natureza do vínculo deles só será conhecida aos poucos. O marido se mata. Yu Cheng será um dos quatro personagens essenciais deste drama polifônico.
 
Wei Bu (Yuchang Peng) é um jovem aluno de ensino médio, que decide apoiar seu amigo, Li Kai, ameaçado pelo valentão da escola, Yu Shai, que o acusa de ter roubado seu celular. No confronto, numa escadaria, Yu Shai cai e fica entre a vida e a morte, enquanto Wei Bu começa a fugir. O valentão é irmão de Yu Cheng, um gângster.
 
Amiga de Wei Bu, a garota Huang Ling (Uvin Wang) tem problemas com a mãe, que a trata constantemente mal. Também esconde um segredo: tem um caso com o vice-diretor da escola.
 
Wang Jin (Congxi Li), por sua vez, é um homem de seus 60 anos, que divide o apartamento com o filho, a nora e uma neta pequena. Ele se satisfaz em dormir na varanda, com seu cachorro. Adora a neta. Mesmo assim, seu filho o pressiona para que se mude para um asilo e assim o casal possa ter dinheiro para mandar a filha para uma escola melhor.
 
Estes destinos, aparentemente separados, se desenrolam no mesmo ambiente, numa cidade desolada, fria, de céus sempre nebulosos. Os caminhos percorridos pelos personagens são sempre atulhados de ruínas, lixo, objetos quebrados, abandonados. Somente o Parque do Macaco, onde Wei Bu gosta de refugiar-se, parece limpo e arrumado – mas também vazio. O macaco, visto numa jaula ao longe, parece não mais do que uma estátua.
 
A câmera acompanha o desenrolar destas vidas opacas, desesperançadas, de perto, em planos médios, em longos planos-sequência, com pouca música, a princípio. A economia musical é, aliás, um dos pontos fortes do filme. Quando ela entra, realmente significa um momento de inflexão – como quando um fogão explode numa cozinha de um restaurante, fornecendo uma metáfora dessa combustão de esperanças que consome cada um dos personagens. Ou quando Wang visita o asilo, flagrando uma sucessão de rostos solitários e perdidos.
 
Em algum momento, em função da perseguição a Wei Bu, estas vidas se entrelaçarão – e aí entra o elemento que dá nome ao filme, referente a um circo na Mandchúria, que passa a ser o lugar de escape sonhado para Wei, Huang e Wang. Como se pode imaginar, é mais uma metáfora do desejo de mudança do que realmente um lugar para onde se possa escapar – como sugerem, em mais de um momento, as falas de alguns personagens, não adianta mudar de lugar que a vida não melhora, há sempre agonia.
 
Embora o tempo da história seja um tanto dilatado – são 3h50 de filme -, é admirável como o diretor compõe seus personagens, inserindo-os num esquadro de vida, numa encruzilhada de caminhos, incertos, errados, às vezes, mas completamente humanos. É notável, também, como o diretor e roteirista não deposita qualquer esperança em instituições – a escola é uma organização apática, desinteressada de seus alunos (o vice-diretor diz a eles que um dia serão vendedores de comida na rua, nada mais).
 
A família não é nada melhor, como atestam o núcleo familiar de Wu Bei – que tem um pai, ex-policial, alcoólatra e violento -, Huang e sua mãe cínica e agressiva, Wang e seu filho e nora indiferentes. O que resta então? O grito do elefante, que estava longe e estava quieto. Um grito primal.

Neusa Barbosa


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