Guerra fria

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Zula e Wiktor são uma cantora e um músico polonês que se apaixonam num momento conturbado da história de seu país. O filme acompanha 15 anos entre idas e vindas do casal por diversos cantos da Europa, enquanto o continente passa por grandes transformações sociais, políticas e culturais.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

22/01/2019

A guerra até pode ser fria, mas a paixão entre Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot) não poderia ser mais incendiária nesse filme, que rendeu ao polonês Pawel Pawlikowski (Ida) o prêmio de direção no Festival de Cannes de 2018 ano e indicado ao Oscar na categoria. Autor do roteiro – em parceria com Janusz Glowacki –, o cineasta parte da história de seus pais (a quem o filme é dedicado) para contar as idas e vidas de um casal ao longo de 15 anos. O resultado é um épico em miniatura (com menos de 90 minutos!) de uma paixão fraturada e consumida pela arte e política na Polônia (e em vários cantos da Europa) do pós-Segunda Guerra.
A fotografia retoma o preto-e-branco de Ida, novamente assinada por Łukasz Žal (também indicado ao Oscar), e dá um ar antigo ao filme. Ao mesmo tempo, sua narrativa e personagens são tão dotados de frescor que o filme não tem nada de ultrapassado. Parece existir num entretempo e lugares – talvez num outro planeta, não fossem as constantes referências históricas e geográficas. Fora isso, Guerra fria é, de certa forma, um musical que retoma canções folclóricas, populares e românticas da Polônia – a maioria na voz afinada e afiada de Kulig. O longa também concorre ao Oscar na categoria melhor filme em língua estrangeira.
Wiktor é um compositor e Zula uma cantora da cidade grande, que finge ser uma camponesa das montanhas, quando se conhecem, para conseguir entrar para um grupo de cantores e bailarinos. Não custa muito e estão soltando faíscas. O romance entre eles atravessa os anos e as fronteiras, quando o rapaz precisa se refugiar na França diante do stalinismo que lhe impõe parâmetros artísticos, sociais e políticos.
Um dos temas do filme, de maneira sutil mas não ineficaz, é o quão anódina a arte panfletária é. Um momento revelador é quando uma faixa está sendo pendurada diante de um edifício: “Saudamos o amanhã”, lê-se. O sujeito que está em cima da escada pregando-a cai e se arrebenta numa viga. É uma cena levemente cômica, mas também melancólica, pois ninguém estava interessado no futuro, e sim num passado cujas versões são filtradas pelo Estado. Assim, a música tradicional tem aí um papel fundamental em perpetuar um legado, já devidamente maquiado. Os números musicais, no entanto, são exuberantes, avassaladores em suas tonalidades (mesmo no preto e branco) e coreografias. São o símbolo da resistência e da esperança de futuro – mesmo com um banner gigante com o rosto de Stalin de fundo num palco.
Wiktor e Zula continuam se encontrando, brigando e se afastando pela Europa – especialmente Paris, que serve de refúgio. O momento histórico da guerra fria assume conotações pessoais entre os dois. O amor talvez seja uma guerra fria quando a chama se apaga. As narrativas de ambos estão em disputa, e não há vencedores porque, no fundo, não há saída. A melancolia paira, e a bela versão de Glenn Gould para Variações Goldberg, de Bach, ao final do longa, dá o tom de que amar é estar em guerra – senão com quem se ama, consigo mesmo

Alysson Oliveira


Trailer


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