Carandiru

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Crítica Cineweb

10/04/2003

Estruturando-se como um inventário de vidas perdidas, com um núcleo dramático que oscila ao sabor de dezenas de histórias, a narrativa do filme caminha no fio da navalha.Um percurso arriscado. Não há heróis aqui.
A cena de abertura não facilita o que vem a seguir. O espectador é colocado na mesma posição do médico-narrador (Luiz Carlos Vasconcelos), desembarcando no território desconhecido da maior prisão da América Latina bem no meio de um conflito entre os detentos Lula (Dionísio Neto) e Peixeira (Milhem Cortaz). O primeiro quer vingar a morte do pai, cometida pelo segundo. Uma grande faca sumiu da cozinha do presídio e tudo pode acontecer - uma áspera amostra da tensão permanente desse universo.

Não é fácil o que o filme pede do espectador - que acompanhe tantas biografias tortuosas sem julgá-las, como o médico. Uma postura que representa um risco bem maior para o filme do que foi para o livro, o bestseller de Drauzio Varela, Estação Carandiru, seu ponto de partida. Afinal, se nem uma obra nem a outra cosmetizam essas pessoas que vivem na contramão da lei, não há aqui, como no livro, um médico respeitado como Varela guiando o leitor pela mão, suspendendo sua natural resistência diante daqueles que tantas vezes agridem a ordem de sua vida, do lado de fora daquelas grades. Muito pelo contrário: a figura mais discreta neste filme é a do médico-narrador que atua numa chave que procura apagar sua presença.

Estas duas opções - a entrada brusca na ação e o narrador quase invisível - são a carta de apresentação de um dos filmes mais aguardados dos últimos tempos. Uma expectativa que não é necessariamente garantia de sucesso, embora seja de exposição na mídia, por se tratar da adaptação de um dos maiores sucessos editoriais do país dos últimos tempos. Deixando de lado essa expectativa, que afinal é externa à história que aqui se pretende contar, Carandiru representa a volta para casa, profissionalmente falando, do diretor Hector Babenco. Depois do intervalo extremamente pessoal de Coração Iluminado(1998), Babenco volta a abordar a vida atrás das grades, tema de três de seus filmes anteriores, (Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia, Pixote, A Lei do Mais Fraco) e O Beijo da Mulher Aranha). Em outras palavras, o cineasta retorna o foco aos excluídos da ordem social que sempre foram a opção preferencial de sua cinematografia. A diferença é que, tendo Carandiru um eixo tão coletivo, a ambição do filme chega a ser épica.

Não que se deixe de lado o individual, nem se poderia. Mas as histórias de Seo Chico (Milton Gonçalves), que passou praticamente toda a vida na cadeia e tem 18 filhos; do "juiz" informal das rixas Nego Preto (Ivan Junqueira); de dois irmãos de criação (Wagner Moura e Caio Blat) unidos na prisão; do traficante Majestade (Ailton Graça) e suas duas mulheres (Maria Luisa Mendonça e Aida Lerner); e do insólito casal formado pelo travesti Lady Di (Rodrigo Santoro) e o enfermeiro Sem Chance (Gero Camilo) somam suas tintas para compor este microcosmo que sintetiza como poucos a desordem social brasileira. Uma desordem assim escancarada desemboca numa das cenas mais emblemáticas quando, antes de um jogo de futebol na prisão, os presos cantam o Hino Nacional - um recurso que teria tudo para soar falso e, no entanto, mostra-se o mais apropriado a tudo o que o filme está dizendo sobre o país.

A seqüência do massacre dos 111 presos, de 1992, é claramente outro ponto alto. Partindo de um desentendimento banal entre alguns detentos depois do jogo de futebol, a rebelião se arma com a fúria de uma onda que afinal toma toda a prisão, com os resultados conhecidos. Duas cenas ficam na memória: a água manchada de sangue quando se lava as escadas e uma outra em que um cão policial encara um gato, ambos imóveis.

Apesar de ter lido livros sobre teorias comportamentalistas, em torno de experiências com ratos e macacos, Babenco não contaminou seu olhar. Fez um filme seco, sem sociologia, certeiro num humanismo que rejeita a piedade.

Cabe uma comparação com Cidade de Deus, outro grande filme coletivo e recente sobre as mazelas brasileiras. A maior diferença está na linguagem. Babenco imprime menor velocidade ao seu ritmo, apoiado numa câmera mais tradicional, menos volátil. É uma narrativa mais naturalista e mais bruta, também mais irregular, menos compassada, até por conta de alguns desequilíbrios em diálogos e interpretações. Coisa natural num gigante narrativo que carrega 26 protagonistas, 120 atores secundários e 8.000 figurantes, dos quais nem todos sobreviverão.

Neusa Barbosa


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