As herdeiras

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País


Sinopse

Chela vive com sua companheira Chiquita há anos, tanto que se tornou completamente dependente dela para assuntos mais práticos, como pagar as contas. Quando a outra é presa por fraude, Chela precisa aprender a lidar com o mundo.


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Crítica Cineweb

16/08/2018

Chela (Ana Brun) tem 50 e poucos anos e uma vida de regalias e pouco esforço, como parte da elite paraguaia. Até agora. Com a crise batendo em sua porta, sem dinheiro, ela se vê obrigada a desfazer-se de bens que sua família acumulou. Vão-se a prataria e os cristais, e ela também abre mão das luminárias e móveis – o que der um bom dinheiro é vendido. Sua casa, antiga e caindo aos pedaços (mas outrora chique), está sempre aberta para os novos ricos, que entram e passeiam como numa feira à procura do que comprar.
 
Chiquita (Margarita Irun), companheira de Chela há anos, a protege. Evita que veja seus bens sendo levados  e a poupa da coisas mais mundanas, como lidar com dinheiro e imposto de renda. Chela se fecha em seu ateliê, onde pinta aquarelas que provavelmente nunca valerão nada. Tudo isso até que a outra vai presa por fraude, e a protagonista precisa encarar o mundo.
 
O Paraguai não é um país com tradição cinematográfica. Sua produção, inclusive, ficou praticamente parada entre 1978 e 2006, quando Paz Encina realizou seu poderoso Hamaca Paraguaya (inédito em circuito brasileiro, mas exibido na Mostra de SP em 2006). As herdeiras foi escrito e dirigido por Marcelo Martinessi e saiu do Festival de Berlim com o prêmio Alfred Bauer, o da crítica internacional e o de atriz, para Brun. No Festival de Gramado, ganhou como melhor longa latino, diretor, atrizes (para Brun, Irun e Ana Ivanova), da crítica, e do público, entre outros. Até agora, o longa coleciona vinte prêmios em festivais pelo mundo e desponta como um sério candidato à indicação ao Oscar de Melhor filme em língua estrangeira – que seria a primeira de uma produção paraguaia.
 
É uma trajetória de sucesso para um filme delicado, mas de profunda compreensão sobre a alma feminina (praticamente não existem personagens masculinos no longa) e a dinâmica de classe numa sociedade pautada por um abismo socioeconômico e o machismo latino. Há algo dos primeiros longas de Lucrécia Martel aqui – especialmente O Pântano – em seu retrato de uma elite parasitária, que se vê sem saída diante da crise econômica.
 
Chela precisa acordar para a vida quando se vê sozinha, com sua companheira presa e sem dinheiro. Quem assume o papel de protetora é sua jovem empregada, Pati (Nilda Gonzalez), que sempre poupa a patroa de lidar com as compradoras que visitam casa. Sem que a protagonista procure, uma oportunidade para ganhar dinheiro surge quando a vizinha (María Martins) lhe pede para levá-la de carro à casa de uma amiga. Antes que perceba, Chela está fazendo um serviço de táxi informal, transportando senhoras idosas e ricas de um lugar para outro.
 
Mas não é só o dinheiro que mantém Chela no trabalho de taxista. Ela conhece Angy (Ana Ivanova), filha de uma de suas clientes, e acaba se interessando por ela, mas de sua maneira contida, em segredo. De qualquer forma, a amizade entre as duas – Angy se apresenta como heterossexual, mas parece saber que está despertando desejos em Chela e gostando disso – transforma a vida da protagonista.
 
Martinessi é um diretor econômico e seguro em suas escolhas. Seu rigor visual é respaldado pela fotografia competente de Luis Armando Arteaga, que começa com planos fechados, imagens emolduradas por batentes de portas e a pouca iluminação do interior da casa deteriorada de Chela. Depois que Chiquita é presa, o mundo da protagonista se abre, assim como as imagens, que ganham mais cores, tornando-se menos claustrofóbicas.
 
Brun é uma presença magnética na tela. Sua atuação é repleta de contenções. Chela transmite o que pensa pelo olhar. Os grandes olhos azuis da atriz – um detalhe que não passa despercebido por Angy – dizem muito. Todas as atrizes estão muito bem, mas é inegável que o filme é de Brun. Sua personagem tem o arco dramático mais complexo, sua transformação é a mais profunda, assim como a busca de uma nova maneira de encarar a vida e viver.
 
Ao colocar em cena exclusivamente personagens femininas, Martinessi faz um comentário sobre o patriarcalismo de seu país – do mundo latino-americano como um todo, na verdade. A investigação sobre as relações de amizade e amor entre esse grupo de mulheres revela um mundo quase à parte, no qual esses laços ajudam a enfrentar o sufocamento da alma feminina em séculos de dominação masculina. 

Alysson Oliveira


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