Podres de ricos

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Sinopse

Rachel é uma professora universitária sino-americana que namora um dos herdeiros mais ricos de Singapura. Ela não sabe disso, mas irá descobrir quando conhecer a família dele e bater de frente com a mãe do moço, que não quer que ele se case com uma estrangeira.


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Crítica Cineweb

15/08/2018

A máxima que Jane Austen escreveu no começo do século XIX está em alta em Singapura na comédia Podres de ricos: “É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, em posse de grande fortuna, deve estar procurando uma esposa.” No caso, o homem rico é Nick Young (Henry Golding), herdeiro de uma família tradicional que enriqueceu no ramo da construção civil. A esposa é Rachel Chu (Constance Wu), professora de economia norte-americana. Eles se amam mas, para que a clássica trama do casamento que guia a narrativa do filme se resolva, é preciso superar um empecilho: a mãe conservadora dele, Eleanor Young, interpretada pela grande Michelle Yeoh.
 
O que muito se falou de Podres de ricos e o que é sua maior qualidade, é que desde O clube da felicidade e da sorte, de 1993, nenhum filme grande americano é majoritariamente – aqui, exclusivamente – composto por um elenco asiático. Houve, ainda na pré-produção, a ideia de branquear Rachel Chu, transformando-a numa americana caucasiana, mas as críticas logo levaram a ideia a ser abandonada. Dessa forma, duas palavras com o mesmo radical são chaves na compreensão do filme: representatividade e representação.
 
A primeira delas é clara, e, de certa forma, bem resolvida. Atores e atrizes asiáticas ou euroasiáticas interpretam os personagens nessa adaptação do romance de Kevin Kwan. Existe um certo exagero ao comparar o filme com Pantera negra – outro longa recente em que as duas palavras também tiveram um papel preponderante –, especialmente porque a ambição e complexidade dos dois longas é bastante distinta. O filme do super-herói da Marvel cria um novo mundo, uma mitologia própria a partir de tradições africanas. Aqui, o que se vê na tela é a cultura asiática – jogando tudo no mesmo caldeirão os asiáticos, sem levar em conta diversidade e especificidade – dourada de maneira hollywoodiana.
 
A representação já é mais problemática. Como apontaram diversos críticos – especialmente de países asiáticos –, o filme joga fora a diversidade étnica e cultural de Singapura num retrato do 1% local e seu mundo de consumismo desenfreado. No filme, Rachel acompanha Nick a um casamento em Singapura, sem saber da condição de milionária da família dele. Antes da viagem, a mãe da moça (Kheng Hua Tan) ainda comenta que talvez ele seja muito pobre e trabalhe nos EUA para mandar dinheiro para a família. Não é o caso, como percebe a protagonista ao chegar a Singapura e ser informada por uma amiga, Peik Lin (Awkwafina, a melhor presença no filme), de que o clã do rapaz chegou àquele país quando tudo era, literalmente, mato, ajudou a construir o local e detém riqueza e poder.
 
O diretor Jon M. Chu é capaz de fetichizar o modo de vida dos ricos de tal forma que Podres de ricos é uma espécie de 50 tons de cinza em que o sadomasoquismo é substituído pelo consumo desenfreado. Um par de brincos antigos custa a pechincha de 1,2 milhão de dólares, e uma prima de Nick, Astrid (Gemma Chan), o compra sem nem piscar os olhos. Esse tipo de comportamento é o que fascina qualquer pessoa que precise perguntar o preço antes de comprar qualquer coisa – ou seja, 99% da humanidade.
 
Por isso, o diretor Chu falha ao evitar as engrenagens que mantêm o clã Young de pé. É bem verdade que uma comédia romântica não é bem o terreno fértil para se explorar essa questão, mas a forma como o filme evita qualquer coisa que fuja às esferas do consumo é reveladora. Mostrar o que vai além do sonho e fantasia (especialmente de riqueza) é tirar o elemento mágico do conto de fadas. Colocar na tela a famosa desigualdade social da China e Singapura é mostrar que o dinheiro chega a qualquer família manchado de exploração.
 
O mais curioso é que um filme situado na Ásia, protagonizado por personagens e intérpretes asiáticos e asiáticas ainda encontre espaço para exaltar o espírito norte-americano. O que acaba levando a tese da representatividade para o ralo. O embate entre Rachel e Eleanor está entre a modernidade da moça e a tradição da matriarca. A americana representa, como o filme deixa claro mais de uma vez, seguir em busca da paixão, do sonho – mesmo que isso, como aponta a mãe de Nick, custe deixar a família de lado. Aqui – como em boa parte das produções culturais dos EUA –, o etos dos Estados Unidos é a régua que mede o sucesso e, nesse sentido, transformar Rachel na heroína de Podres de ricos é tomar a superioridade do moderno diante da tradição – fazendo da representação dos asiáticos mero mediador para exaltação da parte rica do mundo ocidental.

Alysson Oliveira


Trailer


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