Morvern Callar

Morvern Callar

Ficha técnica


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Sinopse

O namorado de Morvern Callar, uma jovem que trabalha num supermercado, se mata, deixando um romance em seu computador. A garota assume a autoria do livro, manda para um editor e descobre o sucesso.


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Crítica Cineweb

13/08/2018

O segundo longa de Lynne Ramsay, Morvern Callar (2002), cristalizou o talento anunciado da diretora no primeiro filme, O lixo e o sonho, e nos curtas anteriores – mais notoriamente Gasman. Filme sobre existencialismo de fin de siécle XX, a vida da personagem-título, interpretada por Samantha Morton, começa com a morte do seu namorado, que se suicida na noite da Natal, deixando o assoalho coberto de sangue e um romance no computador com instruções para ela mandar a obra para editores.
 
Ela fará isso, mas antes, apagará o nome dele, colocando o seu: Um Romance de Morvern Callar. Mas, antes, é Natal, e não será um suicídio que acabará com seus planos de sair com a colega de trabalho (Kathleen McDermott), para beber na pequena cidade escocesa onde moram.
 
O roteiro, assinado por Ramsay e Liana Dognini, capta toda a atmosfera onírica do romance homônimo de Allan Warner – sempre considerado uma espécie de resposta a Trainspotting, do Irvine Welsh. Dois olhares duros e crus sobre a juventude escocesa num momento limítrofe. O longa, tal qual sua protagonista, é observador. Morvern olha, flerta com um mundo ao qual ela não pertence, onde pode entrar, mas não permanecer lá. Funcionária de um mercado, ela não tinha perspectivas na vida, até que aparece o livro do namorado suicida, além do dinheiro que ele tinha na conta.
 
Com a amiga, viajam até a Espanha – uma ensolarada antítese ao céu constantemente cinzento de sua cidade. O que motiva essa viagem? É um estado de choque, a busca por uma catarse ou o começo de uma nova vida? Ela está seguindo um sonho, o sonho de uma classe operária, de riqueza fácil, bebidas, música e sexo. É também o sonho que poderá cobrir a cratera existencial que consome Morvern. Não há propriamente uma trama – namorado morre, Morvern consegue dinheiro, viaja –, mas o que Ramsay faz com isso é profundo.
 
O mergulho de descoberta existencial da personagem é acompanhado pelo filme – desse mergulho emerge uma personagem que pode ser amoral ou oportunista, mas é também uma zumbi. Seu torpor contrasta com a excitação infinita de Lanna, para quem tudo é um estímulo. “O que há de errado com você? O que você quer? Em que planeta você está?”, ela pergunta à protagonista (aliás, ninguém sabe da morte do namorado, de cujo corpo Morvern se livra ao som de “I’m sticking with you”).
 
O planeta que se chama Morvern Callar é habitado por uma pessoa só, mas também sons – a trilha inclui, entre outros, Aphex Twin, Sterelolab e Lee Hazlewood & Nancy Sinatra – e imagens – a fotografia é de Alwin H. Küchler (Steve Jobs, Sunshine – Alerta Solar) – peculiares.
 
Há obviamente exageros e inconsistências – nenhum editor daria um cheque tão gordo a um autor estreante, assim, do nada, e de uma vez, entre outras coisas – mas nelas também residem a profundidade do filme, o aspecto no qual ele toca a realidade, entra em contato com o mundo real, absorvendo-o, e, ao mesmo tempo, renegando-o. Esse é um planeta peculiar, dizem Warner, Ramsay e Morton. As regras aqui são diferentes. Tudo tão peculiar quanto estar numa rave ouvindo The Mamas & The Papas nos fones de ouvido, e terminar o filme de forma tão poética e melancólica ao som de “Dedicated to the one I love”.

Alysson Oliveira


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