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Crítica Cineweb

14/01/2003

Na paisagem desolada de Newfoundland, norte do Canadá, um personagem (Rhys Ifans) conserta cuidadosamente seu barco, alimentando o sonho de vir para o Brasil. Nada de se estranhar, já que ele vive cercado da paisagem mais gelada, chuvosa, cinzenta e batida pelo vento que se pode imaginar. Os seres solitários desta cidade litorânea só podem mesmo ansiar pelo incandescente sol brasileiro.

Newfoundland é também o endereço de pessoas que vivem com o inverno na alma. Como o protagonista, Quoyle (Kevin Spacey), um americano que se refugia ali, terra de seus ancestrais, depois de enviuvar. Esse lugar que é, à primeira vista, o avesso de tudo torna-se a oportunidade de redenção para Quoyle.

O problema de Quoyle é ser, por natureza e literalmente um peixe fora d'água. Logo na primeira cena, a câmera intimista o flagra ainda criança, numa traumática aula de natação. Seu pai simplesmente empurra-o dentro d'água e grita com ele para que mexa braços e pernas, sem esboçar qualquer reação para seu salvamento quando o menino engole água aos borbotões. Não admira que a fantasia do filho fosse imaginar que fora trocado na maternidade e que sua família real estava à sua espera em algum lugar do mundo.

Quoyle cresceu assim, tímido, desestimulado, escondido, quase pedindo licença para existir. Vira presa fácil de uma mulher vulgar e manipuladora, Petal (Blanchett, numa interpretação aqui bem longe de seus personagens habituais). Eles têm uma filha, Bunny (interpretada alternadamente pelas gêmeas Alyssa, Kaitlyn e Lauren Gainer), que vira o centro de todo o amor do pai, já que a mãe não pára em casa, sempre em busca de novos amores, bem debaixo do nariz do marido. Uma situação que só termina com o acidente de carro que mata Petal.

Nesse momento de perda tripla para Quoyle - seus pais também acabam de morrer - entra em cena sua tia, Agnis (Judi Dench). É ela quem o convence na mudança para a terra natal da família, engajando-o num projeto de revanche pessoal, sem que ele saiba. A mudança, de todo modo, é um renascimento. De tipógrafo, Quoyle passa a ser jornalista e é desafiado a encontrar um novo amor, em moldes diferentes.

É o tipo do filme intimista, que se apóia num solo de diversos atores tarimbados, nos maiores e menores papéis - Spacey, Judi, Cate, Julianne Moore, Rhys Ifans. É, também, o melhor momento da carreira de Spacey após o Oscar de Beleza Americana, período em que fez escolhas muito duvidosas, como nos melosos A Corrente do Bem e K-Pax - O Caminho da Luz. Aqui, o ator encarna um personagem à altura de seu talento, caminhando em notas sutis. A história guarda uma beleza própria para se descobrir nas entrelinhas, passando por temas fortes como a crueldade e o abuso sexual dentro da família. Um mundo em claro e escuro, enfim, onde circula muito à vontade o diretor sueco Lasse Hallstrom (Regras da Vida), aqui à frente de uma adaptação de livro premiado com o troféu Pulitzer, de E. Annie Proulx.

Cineweb-20/12/2002

Neusa Barbosa


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