Unicórnio

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Quando o pai de Maria abandona a casa, ela e sua mãe tocam a vida na esperança de seu retorno. Um criador de cabras da região, no entanto, mudará a vida delas.


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Crítica Cineweb

11/07/2018

No cinema brasileiro contemporâneo, a obra de Eduardo Nunes talvez seja igual ao animal que dá título ao seu novo longa: Unicórnio. Algo peculiar e único, um tanto mítico, que de longe parece comum, mas de perto percebe-se o que tem de inusitado. Seu primeiro longa, Sudoeste, acompanhava a trajetória de uma mulher (Simone Spoladore) cuja vida passava com rapidez, do nascimento à velhice, enquanto as pessoas ao seu redor não sofriam qualquer transformação ao longo do tempo.
 
Em Unicórnio, tempo e espaço, como no outro filme, são questões fundamentais. Pois é um lugar e um momento que resistem a classificações, recusam mudanças. O cenário alpino parece a Suíça ou até o Leste Europeu (o filme foi rodado no Parque dos Três Picos, em Teresópolis, RJ) – mas a localização, no fundo, pouco importa. O palco de boa parte da trama é um casebre rodeado de colinas e florestas. Nele moram uma mãe (Patrícia Pillar) e a filha (Barbara Luz, um verdadeiro achado em sua estreia no cinema), que esperam a volta do pai (Zécarlos Machado), que partiu.
 
O tempo não se define também. Parece um momento do passado, um passado arcaico, quando mãe e filha vivem do que plantam, tiram água do poço, brincam com o cachorro e esperam. Elas não têm muito a fazer a não ser esperar. Um forasteiro (Lee Taylor) e suas cabras chegam para romper o equilíbrio entre as duas.
 
O roteiro, assinado pelo próprio diretor, é inspirado em dois textos de Hilda Hilst, Unicórnio e Matamoros. A adaptação da prosa da escritora, no entanto, quase deixa as palavras de lado. Unicórnio é um filme de poucos diálogos, cuja narrativa se constrói pelos sentidos, pelas imagens, de um colorido estourado e brilhante, exaltando as cores da natureza – ao contrário do preto-e-branco prateado de Sudoeste. A direção de fotografia dos dois filmes – em polos opostos do espectro – são assinadas por Mauro Pinheiro Jr.
 
O tempo é uma questão cara ao longa, e ao cinema de Nunes, que não faz concessões. É um filme, para alguns, longo e lento – o que pode ser um exagero. Mas não haveria como contar essa história de maneira mais apressada ou mais curta. É uma história sobre a dilatação e estagnação do tempo, sobre um modo de vida que tem seu próprio tempo. Limar meia hora de filme seria neutralizar sua potência, desfigurar seu plano formal.
 
O trânsito entre a fantasia e o realismo é outro elemento fundamental. O animal-título está em cena, é poderoso, branco e de porte avantajado. Tranquilo e amigável, é o confessor da menina de 13 anos, que também diz possuir uma árvore – um pé de romã. O fruto, destroçado logo no começo do longa, é de um vermelho intenso e remete ao clássico A cor da romã, de Sergei Paradjanov, cuja paleta de cores parece servir de inspiração aqui. Ainda naquilo que parece estar no plano da fantasia, a menina tem encontros com o pai, numa sala repleta de azulejos brancos,  onde conversam sobre a vida e a morte.
 
O realismo do filme acompanha a relação delicada de sedução e abandono que acontece entre a mãe e o forasteiro – despertando o ciúme da filha. O alvo do sentimento da garota transita entre a mãe e o homem. De quem ela tem ciúme: de perder a mãe para o rapaz; ou o contrário?
 
Unicórnio não é um filme simples. Suas narrativas que se completam e divergem exigem um público disposto a mergulhar num universo de cinestesia que investiga a resistência à modernização. Num tempo tão saturado de velocidade como o nosso, é uma ousadia fazer um filme cujo ritmo é peculiar – alguns chamariam de lento, mas não é verdade. Nunes – não só aqui, mas em toda sua obra – dialoga com o russo Andrei Tarkovski e sua busca pelas questões da existência, sobre o que é ser humano num momento e lugar; sobre como nosso tempo nos molda, enquanto também o moldamos. O resultado é um longa tão instigante quanto exigente – mas o que ele tem a oferecer em troca está à altura. 

Alysson Oliveira


Trailer


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