A festa

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Janet pertence a um partido de esquerda e acaba de ser nomeada ministra da saúde. Para comemorar, reúne em sua casa um pequeno grupo de amigos. Mas antes mesmo da entrada ser servida, seu marido faz uma revelação bombástica.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

10/07/2018

A roteirista e diretora inglesa Sally Potter (Orlando: A mulher imortal) não precisa de muito mais do que uma hora para fazer um retrato incisivo e cínico do estado das coisas na Europa contemporânea – especialmente da Inglaterra do Brexit e das esquerdas do continente. Seu longa A festa é uma farsa ácida que ilumina o presente com seu melancólico preto e branco, em fotografia assinada pelo russo Aleksei Rodionov.
 
Desde o prólogo – no qual Janet (Kristin Scott Thomas) abre a porta de sua casa alucinada com uma arma na mão – sabe-se que a tal festa não vai acabar bem. Ela foi apontada ministra da saúde – uma política que esquerda que, finalmente, chega ao poder numa Inglaterra dominada por conservadores –, o que pode ser o primeiro passo para se tornar líder do partido e, depois, primeira-ministra. Para celebrar, reúne um pequeno grupo de amigos, que a acompanhou nessa jornada, em sua casa. Ela mesma prepara os pratos, enquanto atende ao celular (todos querem estar perto dela agora) ou a porta.
 
Os convidados são April (Patricia Clarkson), grande amiga de Janet nas alegrias e tristezas; seu namorado alemão (Bruno Ganz), que ainda apresenta resquícios de New Age, sentando no meio da sala para meditar; uma acadêmica lésbica (Cherry Jones) e sua companheira, que acaba de descobrir que está grávida de trigêmeos (Emily Mortimer); um corretor financeiro milionário (Cillian Murphy), que passa o tempo todo ansioso, suando e correndo para o banheiro, cheirando carreiras sem parar, e sua mulher Marianne, assistente da política, mas que irá se atrasar para o evento. Ela é uma presença fantasmagórica que ronda o ambiente o tempo todo – um gatilho para as desgraças prestes a acontecerem. Todos formando parte da chamada “elite metropolitana” (nos EUA, conhecida como “elite liberal”)  tão trucidada pelos conservadores nos últimos tempos.
 
Há também o marido intelectual de Janet, Bill (Timothy Spall), que começa a noite meio catatônico, meio abobalhado, colocando discos de vinil na vitrola sem parar. Ele será o estopim do caos quando diz que tem duas revelações a fazer. Uma mais bombástica que a outra. Potter, que também assina o roteiro, leva seus personagens a colocarem para fora todos os seus ódios reprimidos por muito anos, cujas miras são seus amigos, num ritmo que impede que sequer as entradas sejam servidas.
 
O título original, The party, traz em si um trocadilho intraduzível: significa tanto "a festa", quanto "o partido". E esses personagens – excetuando o corretor financeiro – são todos do mesmo partido de esquerda e, claro, têm os mesmos ideais. A expectativa agora é saber como Janet (a primeira deles a chegar ao poder) irá se comportar: irá trair seus princípios? A questão é o quanto isso depende única e exclusivamente dela. Seus amigos já colocam pressões na ministra – que ainda nem assumiu o cargo.
 
Mas o filme vai muito além de radiografar, nesse microcrosmo, a esquerda europeia e sua luta cada vez mais sufocada. Vêm à tona assuntos como sistema público de saúde – defendido por Janet, é claro. A personagem de Clarkson (que é estranhamente parecida fisicamente com a diretora) é uma comentarista mordaz sobre as pessoas e o estado das coisas, não poupando nem o feminismo da amiga (“Você é uma lésbica de primeira classe e uma pensadora de segunda.”), a ganância desenfreada do corretor ou seu namorado alemão (“Faça cócegas num aromaterapeuta e você encontrará um nazista”), além de sempre deixar claro não confiar na democracia, nem no parlamentarismo.
 
O dramaturgo russo Anton Tchekhov disse que não se mostra uma arma no primeiro ato sem que ela seja disparada no terceiro. Mas não falou nada se os tiros devem ser reais ou metafóricos. Já os de A festa são capazes de despedaçar corações, destruir reputações e ferir sensibilidades. São disparos mordazes e cortantes. 

Alysson Oliveira


Trailer


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