Cachorros

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Sinopse

Mariana é rica e sem muito interesse por questões políticas. Quando fica sabendo que seu instrutor de equitação é um militar que está sendo julgado por crimes ocorridos durante a ditadura, ela não se abala com isso. Porém, o passado volta à tona quando ela descobre um vínculo entre este homem e seu próprio pai.


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Crítica Cineweb

20/06/2018

O passado é um fio de sangue fino e contínuo que escorre de uma ferida não-cicatrizada no cinema chileno contemporâneo. Seja na Trilogia sobre o período de Pinochet, de Pablo Larraín (Tony Manero, Post Mortem, No), ou nos documentários de Patricio Guzmán, a ditadura militar que o país enfrentou entre 1973 e 1990 é a força que impulsiona a obra. O passado joga luz sobre o presente. No seu segundo longa de ficção, a documentarista Marcela Said se junta ao grupo.
 
Cachorros é um filme que procura num passado, que alguns insistem que seja varrido para debaixo do tapete, uma luz para o presente. O resultado é o encontro entre o pessoal e o político no filme protagonizado por uma mulher rica e alienada do mundo em que vive e da história de seu país. Mariana (Antonia Zegers) tem 40 e poucos anos e uma vida de muito conforto. Sócia numa grande empresa, quem cuida dos negócios é seu pai, Francisco (Alejandro Sieveking). Ela é casada com um argentino (Rafael Spregelburd) que não lhe dá muita atenção. Também é dona de uma galeria de arte e apaixonada por cachorros.
 
Sua nova mania é tomar aulas de equitação. Seu instrutor é um sujeito atencioso e prestativo, Juan (Alfredo Castro). Não custa muito, ela descobre que ele está sendo julgado por crimes que cometeu durante a ditadura – ele é um coronel. Ainda assim, Mariana não se espanta, não se afasta dele, pelo contrário, se sente mais atraída pelo homem. Numa festa, descobre que seu pai também o conhece.
 
Said é uma diretora corajosa, ao colocar ao centro do filme que escreveu e dirigiu duas figuras tão antipáticas e fazer com que o público se interesse por elas. A protagonista é completamente alienada do mundo em que vive, sua bolha de dinheiro e conforto faz com que não seja capaz de se solidarizar, sendo destituída de qualquer senso de história – nem para o bem, nem para o mal.
 
Seu pai, ao contrário, mais do que conivente com a ditadura, aproveitou-se dela, e esse laço o une a Juan, que é mais conhecido como Coronel. Said esmiúça o papel daqueles que, mesmo não sendo militares e não estando diretamente no poder, lucraram e muito com a ditadura militar.
 
O fato de ter um par de grandes atores ao centro – Zeggers e Castro – contribui para o sucesso da execução do filme. Eles interpretam dois personagens glaciais com olhares frios e, para quem os animais (os cachorros, para ela; e os cavalos, para ele) parecem valer mais do que seres humanos. Os dois se complementam, mas com Juan virá o choque de realidade para Mariana.
 
A diretora constrói a narrativa num fogo brando e constante. A fotografia de George Lechaptois valoriza tons mais escuros e o aspecto soturno do filme, assim como a trilha de Grégoire Auger. Cachorros não é um filme fácil, porque é angustiante, em seu retrato aguçado do 1% da sociedade que vive de sugar o sangue dos demais – não importa onde, não importa quando.
 
Said trabalha entre o realismo e a alegoria e, nesse sentido, o título do filme se refere, é claro, não apenas aos animais que Mariana tanto ama e pelos quais compra brigas. O quadro “Laura y Los Perros”, de 2012, do pintor chileno Guillermo Lorca, é um símbolo que grita aqui – não apenas está em cena na casa da protagonista como é o pôster do longa. Lorca é um artista contemporâneo que usa elementos clássicos do barroco europeu aliados a algo perturbador que beira o surrealismo. O resultado são obras que causam estranhamento, paixão e repulsa ao mesmo tempo.
 
Cachorros trabalha nessa chave: aquilo que atrai os personagens também pode causar ojeriza. Mas Said vai além: ninguém destituído de culpa aqui – especialmente os personagens chilenos – embora todos estejam impunes. Não por acaso, o personagem do marido é argentino, para que possa existir a seguinte fala no filme: “Na minha família também há militares, mas todos estão presos”, apontando assim como cada país tem lidado com a herança soturna de seu passado recente. 

Alysson Oliveira


Trailer


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