Dois Perdidos numa Noite Suja

Ficha técnica

  • Nome: Dois Perdidos numa Noite Suja
  • Nome Original: Dois Perdidos numa Noite Suja
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Brasil
  • Ano de produção: 2002
  • Gênero: Drama
  • Duração: 100 min
  • Classificação: 16 anos
  • Direção: José Joffily
  • Elenco: Roberto Bomtempo, Débora Falabella

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Crítica Cineweb

02/04/2003

É possível enxergar neste filme a tortuosa história de amor que existe entre Paco (Débora Falabella) e Tonho (Roberto Bomtempo). Mas não sem antes atravessar a intensa camada de violência que corta essas duas vidas e há muito já rompeu a sensibilidade destes excluídos do Brasil, no cenário desesperadamente frio de uma Nova York que não reserva para eles mais do que a marginalidade e a desumanização.

O diretor José Joffily acertou em cheio justamente em apostar nas duas maiores ousadias de seu filme, a segunda adaptação cinematográfica (a primeira, de Braz Chediak, em 1971) da peça original de Plínio Marcos. Ou seja, a mudança de cenário de São Paulo para Nova York e a transformação de um de seus dois protagonistas numa mulher. Duas novidades que foram, aliás, sugeridas pelo roteirista Paulo Halm e funcionam como pontes fundamentais para o funcionamento da imprescindível atualização do texto teatral, produzido em 1966. Essas mudanças não traem o conteúdo original, bem ao contrário. Situar a história em Nova York, ao invés de mantê-la limitada a um quarto de pensão da periferia paulistana, como na peça original, não retira dela um componente básico, a sua persistente claustrofobia pela falta de saída existencial para os dois personagens.

De quebra, o deslocamento do cenário para Nova York permite inserir um tema novo e estranho à peça, a orfandade de milhares de brasileiros que emigram para o exterior e encontram pesadelos bem maiores do que os sonhos de sucesso que foram procurar. A vantagem, nesta adaptação, é que se mantém o descarnamento dramatúrgico e a virulência que caracterizava o trabalho do dramaturgo paulista, falecido em 1999. Não há, portanto, razão para se apontar qualquer traição ao espírito do texto. Além disso, não há como negar que, com a nova roupagem, o filme transpira uma dolorosa atualidade e encontra uma forma de dialogar com as platéias atuais, que podem nem mesmo conhecer a peça.

Da mesma forma, o fato de que Paco seja uma mulher, ainda que se faça passar por homem desde o nome, adiciona uma eletricidade positiva à tensão sexual que liga estes dois personagens. Por força da vigorosa interpretação de Débora Falabella (em sua estréia em longa-metragem), o detalhe soma dramaticidade à inexplicável negação que faz do próprio corpo, ainda mais poderosa pela falta de explicações dos motivos que a levaram a isso, bem como a tornar-se um falso garoto que vive como michê. Sem psicologização à vista, a profunda raiva e tristeza que movem Paco ocupam todo o espaço da tela, tornando-a um dos personagens mais consistentes do cinema brasileiro dos últimos tempos - fato reconhecido pelas justas premiações à jovem atriz nos festivais de Gramado e Brasília em 2002.

De sua parte, Roberto Bomtempo faz um bom contraponto à fúria de Paco, atuando em chave minimalista, como deve ser para que o enredo caminhe. Não é uma história nada fácil, nem digestiva, nem edificante. Aqui não há heróis, apenas duas pessoas intensamente feridas, que só encontram escapatória às custas um do outro, porque perderam de vista qualquer possibilidade de solidariedade. O caminho de volta, apenas para um deles, é um poderoso lembrete do ponto a que chegou a sua brutalização.

Cineweb-4/4/2003

Neusa Barbosa


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