Frida

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Crítica Cineweb

02/04/2003

Desde os letreiros, Frida entra pelos olhos prazerosamente, como uma boa pintura. A direção de arte é um arraso, bem como a fotografia (do talentoso Rodrigo Prieto, de Amores Brutos), figurinos, iluminação, cenários. Algumas seqüências de efeitos especiais, o desenho animado à la Tim Burton - que reproduz o calvário da protagonista Frida Kahlo (Salma Hayek) no hospital - e a viagem de Diego Rivera (Alfred Molina) a Nova York, como um King Kong são de uma inventividade visual realmente vigorosa.

Até o acidente de ônibus do início do filme é retratado de modo extremamente climático, com a câmera acompanhando a escapada de um passarinho da mão de um passageiro, a sucessiva quebra dos vidros das janelas que se misturam ao sangue dos feridos e a poeira dourada que cai da bagagem de um encadernador. A soma de tantos elementos quase distrai o espectador da carga trágica do acontecimento, responsável pelo início dos dramáticos problemas de saúde que afetaram a pintora. Em câmera lenta, o acidente fica quase estético, por assim dizer.

Esse embelezamento é, ao mesmo tempo, a força e a fraqueza desta cinebiografia da pintora mexicana (1907-1954), dirigida por Julie Taymor, celebrada diretora teatral que assinou a bem-sucedida montagem de O Rei Leão na Broadway. Um desafio de saída para Mrs. Taymor é que seus heróis, Frida e Diego, não são muito hollywoodianos. Vale dizer, são esquerdistas demais ainda mais em tempos de George W. Bush. Daí, o filme tenta enquadrar Frida o tempo todo num molde, que faz lembrar muito o gesso com que os médicos procuram reconstruir seus ossos quebrados no acidente. E a personagem rebelde escapa a cada minuto.

Frida foi uma dessas personagens maiores do que a vida, em comportamento, sexualidade, arte, política, num tempo em que tudo isso ainda não tinha virado moda. Uniu-se a uma figura muito semelhante - Rivera - e não raro o superou. Os dois se engajaram em todas as causas políticas de seu tempo. Apoiaram a Revolução Russa, mas saíram do Partido Comunista depois dos expurgos e massacres de Stálin. Rivera tornou-se famoso a ponto de ser convidado a pintar um mural para o Rockfeller Center, em Nova York, pelo milionário Nelson Rockfeller (Edward Norton). Mas os dois brigaram porque o artista se recusou a apagar o rosto de Lenin da pintura (um episódio relatado com molho bem mais apimentado em O Poder Vai Dançar, de Tim Robbins). Diego e Frida viveram um casamento aberto e tempestuoso, com muitos amantes dos dois lados e Frida flertando abertamente com a bissexualidade. Não há dúvida de que sua vida vale um filme, ainda mais que a história e os manuais de arte muitas vezes lhe fazem a injustiça de colocar sua pintura extremamente criativa e pessoal como um mero rodapé do mais celebrado Rivera.

No final, sobrevive um pouco da alma de Frida, de sua indomável liberdade. Mas é uma versão novelizada demais. O filme acerta mais na parte pessoal e familiar de sua protagonista (defendida com paixão por Salma Hayek), no período de sua adolescência e juventude. Na maturidade, retratar suas questões políticas e brigas intermináveis com Rivera, bem como o agravamento de sua condição física, mostra-se certamente mais complicado e a obra está determinada a não perder de vista o espetáculo - assim, incide numa pasteurização, especialmente simplista em seqüências como a entrada em cena de Leon Trotsky (Geoffrey Rush). As cores ligeiras com que foi pintado o retrato do revolucionário russo assassinado a mando de Stálin, aliás, desagradou seu neto, Esteban Volkov, que vive no México e foi consultado para a produção do filme. Em entrevista ao jornal inglês The Guardian, em fevereiro de 2003, Volkov, que morava com o avô por ocasião de seu assassinato (em 1940), conheceu Frida e a admirava muitíssimo, coloca em dúvida o envolvimento amoroso entre Trotsky e a pintora, mostrado no filme, devido à estreitíssima vigilância de seus guarda-costas então.

Como brinde para os brasileiros, a trilha de Elliott Goldenthal (que venceu o Oscar) reserva a pérola da canção Burn It Blue, que também concorreu ao prêmio da Academia, entoada em duas vozes pelo brasileiro Caetano Veloso e a mexicana Lila Downs.

Cineweb-4/4/2003

Neusa Barbosa


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