Os fantasmas de Ismael

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Ismael é um cineasta que, mais de 20 anos depois do desaparecimento de sua mulher, refez sua vida e está numa nova relação com Sylvia. Até o dia em que a esposa, dada como morta, o procura.


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Crítica Cineweb

05/04/2018

O cinema do francês Arnaud Desplechin parece existir na forma de uma grande constelação cujas estrelas estão sempre em movimento. Assim, uma delas pode se aproximar da outra, depois se distanciar, mudar de nome, voltar ao antigo – enfim, se movem ao seu bel-prazer. Paul Dedalus, por exemplo, é um personagem que aparece em dois de seus filmes - Como Eu Briguei (Por Minha Vida Sexual), de 1996, e Três lembranças de minha juventude, de 2015, que conta dois momentos da vida dessa figura, interpretado por Mathieu Amalric. O nome, aliás, remete a Ulysses, de James Joyce, e não é apenas ele – em Os fantasmas de Ismael, também estão Henri e Carlotta Bloom. Sem falar no próprio protagonista, cujo nome está na famosa abertura de Moby Dick – “Me chame de Ismael”. Se o jogo é o da intertextualidade, o próprio protagonista mesmo deve ser um membro da família Viullard, de Um Conto de Natal, de 2008, também do cineasta francês.
 
É uma delicada teia de relações entre pessoas, obras e lugares que Desplechin tece em Os Fantasmas de Ismael, roteirizado por ele, Julie Peyr e Léa Mysius. Os não-iniciados podem, sem muito prejuízo, desconhecer todas as relações, e ainda assim tirar proveito do longa – possivelmente nem tanto quanto os fãs, mas não será uma experiência alienante. É preciso, no entanto, deixar se levar por um filme que, à medida em que avança como um turbilhão que gira como a vida do protagonista caoticamente.
 
Há duas décadas, a mulher de Ismael, Carlotta (Marion Cotillard), foi embora sem deixar qualquer sinal, abandonando o marido e o pai, Henri (László Szabó), completamente desesperados. Tanto que os dois nunca mais se recuperaram completamente. O protagonista só conseguiu dar prumo à sua vida há pouco tempo, quando conheceu a astrofísica Sylvia (Charlotte Gainsbourg). Os dois vivem uma relação estável e calma, até que um dia, na praia, Carlotta – ou uma mulher que diz ser Carlotta – reaparece querendo de volta tudo o que deixou para trás.
 
Ismael escreve um roteiro sobre a história de um tal Ivan Dedalus (Louis Garrel) – possivelmente parente de Paul, mas vai saber – um espião durante a Guerra Fria. Aqui, mais uma vez, uma referencia literária, à obra de John Le Carré, mas numa forma levemente satírica. Não dá para levar essa trama a sério, e esse parece ser mesmo o objetivo de Desplechin.
 
Quando Carlotta reaparece, os personagens reagem como, acredita-se, qualquer um reagiria, quando se vê um fantasma: enlouquecem. Desplechin leva o seu filme junto com a loucura deles. O longa perde seu centro de gravidade, tudo se torna um furacão cuja força motriz é Carlotta. Até o filme-dentro-do-filme vai junto.
 
Mesmo com uma colcha de retalhos de referencias e citações – Reis e Rainhas, por exemplo, cita trechos inteiros do romance O teatro de Sabbah, de Philip Roth, autor que é, aliás, uma das inspirações constantes ao cineasta –, os filmes de Desplechin se recusam a ser pastiches. São apropriações e releituras. Há algo de Um corpo que cai, aqui, da mulher que volta dos mortos, assim como da tradicional história medieval francesa de Martin Guerre, o sujeito dado como morto, mas que volta, e ninguém, nem sua mulher, sabe se ele é ele mesmo.
 
O resultado é um caos ordenado que talvez não faça muito sentido nem para Desplechin – no ano passado ele apresentou duas versões do filme no Festival de Cannes: uma de 120 minutos na abertura, e outra de 140, no mercado; a que chegou aos cinemas é a mais curta, mas nada garante que é a mesma da noite de gala do evento. E é aí que está a beleza de seus filmes que parecem até ter notas de rodapé – quando toda a ação é cortada para uma nova trama ou comentário que não tem muito a ver com a trama central, mas a ilumina de alguma forma. É preciso abraçar o caos para gostar de seus filmes. É pouco provável que Os fantasmas de Ismael lhe traga novos fãs, mas deverá satisfazer com gosto os seus admiradores. 

Alysson Oliveira


Trailer


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