Projeto Flórida

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Moonee tem 6 anos e nada para fazer nas férias de verão. Com seus amigos do hotel onde mora - nos arredores da Disney -, ela tenta se divertir, infernizando a vida do gerente. Enquanto isso, sua jovem mãe se deixa levar por uma espiral de autodestruição.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

20/02/2018

Sean Baker é um cineasta singular. Sua câmera – no caso de Tangerine, a do seu Iphone – tem um olhar carinhoso por pessoas que, como diria Cazuza, não foram convidadas para a festa pobre que os homens armaram para as convencer – no caso, o tal sonho americano. Ele lança um olhar para as margens da sociedade destituído de julgamentos, um olhar que documenta, que procura o que há de mais humano em figuras facilmente condenáveis porque as observa de cima para baixo.
 
Em Tangerine, eram duas prostitutas transexuais; em Projeto Florida, um grupo de pessoas que moram em hotéis baratos nos arredores da Disneylândia. Os personagens habitam estabelecimentos que levam nomes como Magic Castle – que, com suas paredes lilás claro, parece um bolo de aniversário enjoativamente doce e sem graça. Mas é o lar que Halley (Bria Vinaite) pode dar à sua filha de 6 anos, Moonee (Brooklynn Prince) – bem, nem sempre, porque, de tempos em tempos, correm o risco de serem despejadas. De acordo com qualquer parâmetro, Halley é uma péssima mãe mas, ainda assim, pode ser uma excelente mãe porque, com seu jeito doido e sem um pingo de juízo, faz a garota feliz.
 
O verão começa com a chegada de uma nova família num hotel ao lado, e Moonee conhece Jancey (Valeria Cotto), uma garota da mesma idade – mas bem mais tímida do que a protagonista – que vive com a avó (Josie Olivo). Há também Scooty (Christopher Rivera), que mora com a mãe, Ashely (Mela Murder), no apartamento exatamente abaixo do de Halley e sua filha. As duas crianças são melhores amigos, assim como suas mães. Os hotéis são dirigidos por Bobby (Willem Dafoe, indicado ao Oscar de coadjuvante), uma figura paterna a contragosto, mas que cumpre a função com empenho e dignidade. Ele é o centro de consciência em meio a pessoas sem muito juízo.
 
Baker – que escreveu o roteiro com Chris Bergoch – observa sem julgar seus personagens, e não os impede de se envolver em encrencas. Ele deixa-os livres, permite que vivam suas vidas da maneira como bem querem. É dessa forma também que as crianças passam o verão, pulando na piscina, visitando as casas abandonadas, pedindo dinheiro na rua para comprar sorvete, ou infernizando a vida de Bobbly no lobby do Magic Castle. A Disney não está longe dali – tão perto, mas tão distante – e se torna uma presença espectral para todos. O "elefante na sala" que ninguém comenta, mas, eventualmente, pode render alguns trocados.
 
A vida dura dessas pessoas – registrada num colorido vibrante na fotografia de Alexis Zabe – não os impede de sorrir. O filme é construído num ritmo de crônica, acumulando uma série de experiências – a maioria delas pelos olhos sagazes mas ainda ingênuos de Moonee – durante um verão. Halley cada vez mais flerta com um submundo, e isso também tem um efeito cumulativo que explode num grito perto do final do filme. E o mundo do filme parece ressoar de magia e ironia – a lanchonete onde Ashley trabalha, por exemplo, chama-se Orange World e tem o formato de uma laranja –, lembrando que o tal Sonho Americano não é para todos, é só para quem pode pagar.
 
Projeto Flórida pode não ser um filme perfeito – a interpretação de Vinaite, descoberta no Instagram, não é capaz de transmitir todas as nuances de uma personagem tão complexa e complicada como Halley – mas Baker e seus intérpretes mirins – especialmente Prince – conseguem contornar qualquer limitação. As crianças, na tela, são divertidas, inteligentes e um tanto irritantes – como qualquer uma dessa idade.  
 
De qualquer forma, Baker foi capaz de criar um dos finais mais bonitos e arrasadores em muito tempo. A resolução que ele dá para Projeto Flórida converge para toda a magia e o desespero pela liberdade que seus personagens tanto anseiam. É o sonho se tornando real – não o Sonho Americano, pois esse é uma ilusão, mas o sonho que se pode materializar e fazer alguém feliz, nem que seja por alguns instantes.

Alysson Oliveira


Trailer


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