Jogador nº1

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Numa Terra devastada por um apocalipse, a população passa a maior parte do tempo numa realidade virtual chamada OASIS. Quando o criador desta morre, ele deixa para trás um jogo, cujo vencedor será seu herdeiro.


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Crítica Cineweb

06/02/2018

Os anos de 1980 são um momento crucial na carreira de Steven Spielberg, quando ele consolidou um modelo de cinema – dirigindo ET - O Extraterrestre (1982) e Indiana Jones e o Templo da perdição (1984), além de produzir Os Goonies (1985), De volta para o futuro (1985), entre outros. São filmes que entraram para o imaginário popular, redefiniram parte da cultura pop e do cinema de aventura desde então. Num primeiro momento, ele parece a pessoa certa para adaptar o romance Jogador nº1, de Ernest Cline, que tem como nessa década sua grande referência, a ponto de tornar-se um fetiche que quase engessa a narrativa.
 
No entanto, mesmo como um dos responsáveis por criar essa mítica – ao menos, no campo das imagens – dessa década, Spielberg parece não conseguir superar as contenções do romance de Cline, que é melhor em sua concepção do que na execução, exatamente porque não consegue superar a nostalgia mediadora da realidade do personagem e da narrativa. Trabalhando com um roteiro do próprio escritor e Zak Penn, o diretor poderia contornar os maiores problemas da obra original – mas não é o caso.
 
Os anos de 1980 (e parte dos 1990), assim como um universo pop e nerd, transformam-se na força motora da narrativa, que segue em trancos e barrancos nesse quesito. Desde as músicas, até as referências visuais e de aventura ancoram-se nisso. A cada cena, o filme parece gritar: "Olha esse carro do De volta para o futuro! Olha esse T-Rex igual ao do Jurassic Park! Olha isso! Olha aquilo! Olha! Olha! Olha!" É para olhar sem ver, porque Spielberg se perde jogando na tela uma porção de elementos num pastiche um tanto vazio, porque a trama de Jogador nº1 é tola a ponto que parecer um mero pretexto para invocar um visual mirabolante.
 
A Terra enfrenta um apocalipse há alguns anos, e as pessoas mais pobres vivem em trailers empilhados uns sobre os outros nos arredores dos grandes centros. O herói do filme, Wade (Tye Sheridan), é um adolescente que vive com a tia e o namorado abusivo dela. O consolo do rapaz – assim como de milhares de pessoas – é uma realidade virtual chamada OASIS, na qual cada pessoa pode ser o que quiser, vivendo num mundo de faz-de-conta.
 
O criador disso, Halliday (Mark Rylance), morre, e deixa como testamento um jogo. Quem chegar à última fase dele e ganhar a disputa, será o novo dono do OASIS. Wade, assim como praticamente todo mundo, está na disputa, mas o game não é fácil, baseando-se na vida de seu criador. Pessoas comuns, assim como uma grande corporação, dirigida por Sorrento (Ben Mendelsohn, especializando-se, a cada filme, em vilões), estão na disputa pelo controle da realidade virtual e, por consequência do mundo.
 
As referências do jogo deixado por Halliday, assim como as da sua vida, são os ano de 1980. É preciso decifrá-las para descobrir algo importante e avançar na disputa. Wade, que no mundo virtual atende pelo nome de Parzival, faz novos aliados, como seu amigo Aech (Lena Waithe), que não conhece na vida real, e Art3mis (Olivia Cooke), uma garota por quem se apaixona. Mas nenhum personagem é marcante o suficiente para ter personalidade própria – até o protagonista, cuja jornada é óbvia e previsível –, e nenhum deles se transforma ao longo da trama. Eles terminam como começaram.
 
Spielberg nunca encontra um balanço orgânico entre o mundo real caótico e a realidade virtual e, como mostra bem pouco da Terra apocalíptica, o contraponto entre um e outro nunca fica muito claro. O que há de melhor em Jogador nº 1 está dentro do OASIS – o que se torna um tanto sintomático ao reescrever os anos de 1980 de maneira tão lúdica, varrendo para debaixo do tapete as mazelas da década, que moldaram muito do que o mundo é hoje cultural, econômica e politicamente.
 
Embora muitas partes de Jogador nº 1 funcionem como filme de aventura, o longa se contenta em fetichizar momentos e referências a ponto de as canibalizar, especialmente uma longa sequência dentro do filme O Iluminado, que poderia se chamar “o retorno do recalcado”, quando Spielberg coloca para fora toda sua sede de ser Stanley Kubrick. É uma parte tola da trama e que pode, num grande esforço para disfarçar o que ela realmente é, ser chamada de homenagem. Mas, no fundo, como tudo aqui, é só mais um símbolo de uma era deglutido e esvaziado, entre tantos outros.

Alysson Oliveira


Trailer


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