Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi

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País


Sinopse

Dois jovens, um branco, outro negro, voltam da Segunda Guerra Mundial para suas famílias, na região do delta do Mississippi, onde reencontram um racismo resistente a qualquer transformação.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

24/01/2018

No cinema, o Mississippi parece sempre estar em chamas, nem que sejam metafóricas. Em Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi, a região do delta do rio é um cenário sempre coberto de lama que serve de cenário para o drama de duas famílias: os McAllan e os Jackson. Os primeiros, uma família caucasiana, liderada pelo filho mais velho, Henry (Jason Clarke), que compra uma fazenda e vai para lá na companhia da mulher, Laura (Carey Mulligan), das filhas pequenas e do pai, idoso e grotescamente racista (o ótimo Jonathan Banks).
 
O filme começa com Henry e seu irmão caçula, Jamie (Garrett Hedlund), cavando uma cova no quintal de casa sob um chuva forte. No dia seguinte, a charrete dos Jackson passa por eles e Henry pede ajuda a Hap Jackson (Rob Morgan) para terminar o sepultamento. É um momento de tensão, e a trama do filme será construída em flasback de forma a chegar a esse ponto.
 
Os Jackson cuidam da fazenda dos McAllan, depois de Henry cair num golpe. O mundo está em guerra e Jamie e o primogênito dos Jackson, Ronsel (Jason Mitchell), estão lutando na Europa. É também o momento em que as leis segregacionistas de Jim Crow estão em vigor, e o racismo é algo institucionalizado.
 
A diretora Dee Rees constrói seu filme diretamente a partir da tradição literária de William Faulkner e Toni Morrison. O sul dos EUA do longa parece saído direto das páginas deles, mas não é apenas isso. Ela se apropria da forma: os monólogos interiores, tipicamente faulknerianos, servem como uma bússola e um comentário da ação. Talvez a ideia, num primeiro momento, não pareça muito boa, colocar diversos personagens em off falando o que pensam e sente, mas Ress faz isso com sagacidade, o que traz uma nova camada de compreensão e profundidade ao seu filme.
 
De Morrison ela se apropria da temática do racismo, dando protagonismo e voz aos personagens negros – especialmente às mulheres. A matriarca dos Jackson, Florence (Mary J. Blige, merecidamente indicada ao Oscar de coadjuvante), é o maior exemplo disso. Sua personagem, uma mãe-coragem que encontra força no seu sofrimento para desafiar seu opressor. Ao mesmo tempo, ela não é cegada pelo ódio, é capaz de ver em Laura uma amiga, uma igual, apesar de todas as diferenças que as separam – as duas são mulheres e mães, num ambiente dominado por homens brancos.
 
Rees, trabalhando com um roteiro assinado por ela e Virgil Williams, a partir do romance homônimo de Hillary Jordan, traça simetria entre os dois clãs, como cada uma das experiências são vistas e assimiladas por eles, especialmente a volta dos filhos pródigos sobreviventes da II Guerra – e cada um dos rapazes terá seus próprios fantasmas com que lidar. Não é de se estranhar que se tornem amigos – a experiência na Europa os une. A amizade começa clandestina, quase como se fossem dois amantes se encontrando às escondidas, devido à questão racial.
 
Uma das ausências mais inexplicáveis na lista dos concorrentes ao Oscar neste ano é a de Mudbound nas categorias principais – embora o filme tenha entrado para a história com a indicação de sua diretora de fotografia, Rachel Morrison, a primeira mulher a competir na categoria. Mas é muito pouco para um drama que vigorosamente revisita o passado dos EUA para buscar seus ecos no presente. O filme também disputa a estatueta em canção original e roteiro adaptado.
 
Se o longa força alguns paralelos entre os McAllan e os Jackson é porque a diretora está mais interessada em efeitos e desdobramentos do que na trama coesa, e nisso o filme encontra sua força. O tom épico é pertinente e transmite com precisão o que permanece do sul dos EUA dos anos de 1940 até hoje. É um filme de época – uma época que parece não ter acabado totalmente ainda.

Alysson Oliveira


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