Solaris

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Crítica Cineweb

26/03/2003

Ao revisitar um clássico de ficção científica de 1961 - o livro escrito pelo polonês Stanislaw Lem - e uma primeira versão cinematográfica intensamente metafísica - a do russo Andrei Tarkovsky (1932-1986), lançada em 1972 - o diretor Steven Soderberg confirma sua grande ambição em afirmar-se como um diretor versátil, capaz de atirar em várias direções, seja no comercial e competente Erin Brockovich, no intrigante O Estranho, no premiado Traffic ou no francamente vaidoso e supostamente experimental Full Frontal. Não há ego maior do que este em Hollywood desde Stanley Kubrick - e olhe que Steven Spielberg ainda está vivo e atuante.

À procura de uma visão autônoma da história, Soderbergh escreveu um novo roteiro, assinou a fotografia, a montagem, além de dirigir - bem no estilo auto-suficiente de Kubrick. Numa entrevista ao The New York Times, em novembro de 2002, ele até assumiu abertamente a inspiração do diretor de 2001 - Uma Odisséia no Espaço: "Sempre imaginei o planeta (Solaris) como o equivalente ao monolito (uma das chaves de 2001)".

Apesar destas referências, é inegável que o Solaris de Soderbergh tem perfume próprio. Mergulha mais na subjetividade do protagonista, o psicólogo Chris Kelvin (George Clooney), ao invés de interrogar-se sobre o seu estar no mundo, como fez Tarkovsky - que usava os dilemas de Kelvin para situá-lo como um paradigma da busca de sentido da vida humana e outras indagações espirituais. Soderbergh prefere andar mais perto do coração intensamente atormentado de seu personagem, um cientista enviado ao planeta Solaris para resgatar os dois sobreviventes de uma missão que deu tragicamente errado.

Na mesma medida em que Tarkovsky se preocupava com a incerteza fundamental do que cada ser humano percebe como verdade, Soderbergh focaliza mais a culpa e o desejo, a saudade irremediável que Chris sente de sua esposa morta, Rheyia (Natascha McElhone). O fato de que o misterioso oceano do planeta sintoniza o subconsciente dos humanos, materializando de algum modo visitantes de seu passado, instaura o inferno na estação espacial. Quando Chris chega, encontra Snow (Jeremy Davies) e Gordon (Viola Davis) entregues às visões dessas insuportáveis materializações. Ele mesmo não tardará em ter ao seu lado um inquietante clone de sua esposa morta - que tem o seu corpo e sua voz, mas não suas memórias. Nesse detalhe é que reside o grande dilema dos visitantes - eles não têm mais vida interior do que a idéia que os seus hospedeiros guardam deles. E não podem escapar disso, embora possam sentir integralmente o desespero de sua condição paradoxal.

Bem mais enxuta que a versão de Tarkovsky (que durava 165 minutos, contra 99 aqui), esta releitura de Soderbergh compõe um filme intenso, que resiste bravamente à tentação de introduzir um happy ending que satisfaria certamente à maior parte do público, ainda mais a partir de um par romântico tão sedutor. Mas isso seria trair completamente a integridade de uma história que, mais de 40 anos depois de ser escrita, mantém intocada sua capacidade de intrigar.

Cineweb-26/3/2003

Neusa Barbosa


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