O insulto

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Locais de filmagem


Sinopse

Tony é um mecânico cristão, residente em Beirute, que tem convicções ultranacionalistas e rancor contra os palestinos que vivem no país há anos. Um dia, seu bairro passa por reparações e sua calha, que está fora das normas, deve ser consertada por um empreiteiro palestino, Yasser. Tony recusa o conserto e os dois acabam entrando numa briga que chegará aos tribunais.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

17/01/2018

Um dos cinco concorrentes ao Oscar de filme estrangeiro 2018, o drama libanês O Insulto, de Ziad Doueri, explora muitas vertentes da dolorosa polarização que opõe cristãos locais e muçulmanos palestinos, um dos subprodutos da guerra civil que abalou o Líbano entre os anos 1970 e 1990.
 
A fagulha que dispara o conflito central é um desentendimento entre um mecânico cristão, Tony Hannah (Adel Karam), e um empreiteiro palestino, Yasser Salameh (Kamel El Basha, prêmio de melhor ator no Festival de Veneza 2017). Encarregado de obras de renovação do bairro cristão, Yasser é molhado quando caminha numa calçada. A origem da água é uma calha ilegal, que pertence ao terraço de Tony. O empreiteiro oferece-se para resolver o problema sem custos, mas Tony não quer nem ouvir falar de um palestino entrando na sua casa, onde mora com sua mulher, Shirine (Rita Hayek), grávida do primeiro filho.
 
Como a questão deve por força ser resolvida, os pedreiros realizam o conserto externo da calha. Quando Tony percebe, arrebenta a obra e bate boca com Yasser, que termina xingando-o. A ofensa traz à tona os rancores mal-resolvidos da guerra civil, bem como da permanência de uma comunidade refugiada palestina no Líbano, resultado também de políticas e invasões de Israel desde a criação de seu estado, em 1948.
 
Está armado o palco de uma disputa acalorada, que a empresa responsável pelas obras, ligada a um deputado, pretende resolver o mais rápido possível com um pedido de desculpas de Yasser a Tony. Muito a custo convencido a fazê-lo, Yasser é novamente provocado pelo cristão, que termina dizendo que “Ariel Sharon deveria ter massacrado todos vocês”. Desta vez, Yasser o atinge com um soco.
 
A situação rende um rumoroso caso no tribunal, transformado num palco político. Assume a causa do cristão um experiente advogado, Wajdi Wehbe (Camille Salameh), a quem não escapam as repercussões extra-judiciais da história. Do outro lado, oferece-se para representar o palestino a advogada Nadine Wehbe (Diamand Bou Abboud), que também tem um interesse particular aqui.
 
Dirigido por um muçulmano secular e roteirizado por ele e sua ex-mulher cristã, Joelle Touman, o filme procura o pluralismo ao explorar nuances dos dois lados, cujas mágoas são todas bastante justificadas. De todo modo, Tony representa um homem comum radicalizado pelos discursos que assiste obsessivamente em vídeos de Bachir Gemayel, líder da extrema-direita cristã que foi eleito presidente e assassinado antes de assumir o cargo, em 1982. Ainda assim, não lhe faltam motivos para ter rancor, como no seu devido tempo a história esclarece.
 
Tomando o pulso das tensões aflitivas que assolam o Oriente Médio, o filme oferece um painel bastante rico e diversificado de argumentos e posições que se tornam claras no meio do caminho, mesmo para quem não acompanhe detalhadamente a história da região. Esforça-se e consegue equilibrar as várias visões, sem minimizar o seu potencial incendiário, como se vê na radicalização dos defensores de cada um dos lados, no tribunal e nas ruas.
 
Fora das telas, o próprio Ziad Zoueri também provoca reações acirradas e até boicote – como o empreendido pela entidade BDS (Boycott, Divestment, Sanctions), que terminou impedindo a exibição de O Insulto em festivais na Palestina. O motivo, na verdade, é seu filme anterior, O atentado (2012),que foi em parte filmado em Israel, causando-lhe problemas inclusive no Líbano, já que ali Israel é considerado um estado inimigo. O BDS, por sua vez, considera que Zoueri rompeu o bloqueio econômico e cultural que defendem contra Israel, ainda que O Insulto tenha sido filmado apenas no Líbano. É uma pena, pois são justamente os palestinos uma das partes mais interessadas em ver um filme como este, que reflete em profundidade sobre os riscos da polarização.

Neusa Barbosa


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