Durval Discos

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Crítica Cineweb

26/03/2003

Apesar de ter como ponto de partida geográfico de sua inspiração um endereço real em São Paulo - a Eric Discos, na rua Artur Azevedo - neste seu primeiro filme, Durval Discos, a diretora paulistana Anna Muylaert preferiu trilhar a corda bamba que divide o drama e a comédia e se arriscou na vereda nem tão segura do humor negro e do absurdo. O vôo inaugural foi premiado com sete kikitos no Festival de Gramado/2002: melhor filme, diretor, roteiro, fotografia, direção de arte, prêmio do júri popular e prêmio da crítica.

Todas essas premiações no festival gaúcho não ensejaram, é certo, nenhuma unanimidade. Foi antes a divisão do júri diante de outras produções que tinham igualmente muitos méritos, como Separações, de Domingos de Oliveira, e Dois Perdidos numa Noite Suja, de José Joffily, que parecem ter canalizado toda essa esteira de troféus na direção de Muylaert, curta-metragista que já havia trabalhado, entre outras coisas, na criação do celebrado seriado Castelo-Rá-Tim-Bum, da TV Cultura. Sete meses depois de Gramado, porém, a poeira já assentou o bastante sobre os ânimos para que o filme seja avaliado com serenidade. E o balanço é francamente positivo, em que pesem algumas vacilações de ritmo que são perfeitamente justificáveis no trabalho de uma cineasta em viagem inaugural.

Desenvolvido a partir de um laboratório do Festival de Sundance no Rio de Janeiro em 1998, o roteiro assinado pela diretora é, com certeza, um ponto fortíssimo. Num clima claustrofóbico, encontra seu protagonista, o quarentão Durval (Ary França), no mundo recluso de sua loja de discos em vinil, num tempo em que todos já adotaram o CD. Parado nas fixações de sua perdida juventude nos anos 70, entre temas de Tim Maia e Rolling Stones, Durval resiste a deixar entrar qualquer sopro de realidade pela porta. De vez em quando, chega um cliente perdido - como uma Rita Lee completamente desvairada por um disco de Caetano Veloso de capa branca. Mas o mais comum é que invada a lojinha apenas a garçonete da doceria ao lado, a fofoqueira Elizabeth (Marisa Orth), que vem fumar escondido da patroa e insistir numa paquera sem futuro, porque nunca percebida pelo desatento Durval. Pouca coisa nesse primeiro ato da trama prepara o espectador para a virada radical do segundo tempo.

A única habitante do mundo secreto de Durval é sua mãe, Carmita (Etty Fraser, em atuação em que supera drasticamente sua imagem adocicada), que está visivelmente perdendo pé da situação, mesmo dentro das quatro paredes do pequeno sobrado de Pinheiros. Não consegue nem mesmo lembrar mais as receitas que fazia com freqüência para deleitar o paladar prosaico de Durval. Ele mesmo vê como presente do céu a chegada de uma empregada, a bonita Célia (Letícia Sabatella), que mostra seus dons entre o forno e o fogão com uma rapidez espantosa.

A verdadeira identidade desta empregada é o primeiro sinal do que está por vir. O inusitado toma a forma de uma garotinha, Kiki (Isabela Guasco), deixada para trás por Célia com uma biografia cujos detalhes formam a crônica de uma tragédia anunciada, onde se misturam detalhes policiais, violência e loucura numa proporção que o espectador em geral não consegue adivinhar a tempo de se preparar. Ainda bem. A capacidade de gerar surpresas é uma das mais gratas ousadias que este pequeno filme proporciona. E o cinema brasileiro nem sempre tem se mostrado capaz de arriscar uma mistura de ingredientes que flerte tão de perto com o mórbido e o grotesco, sem perder de vista a humanidade deste pequeno grupo de personagens.

Outro ponto alto está nas interpretações. Os atores se conduzem dentro do tom, afinados como uma orquestra de câmara que sabe que uma única nota dissonante pode colocar em perigo todo o conjunto. Mesmo a menina Isabela Guasco mantém o ritmo, apesar da pouca idade.

Já o ritmo da ação coloca alguns problemas. Como se trata de uma tragicomédia em dois atos, a sintonia entre sua primeira e a segunda parte não resulta inteiramente satisfatória. Se bem que seja proposital a falta de pistas do início para a insanidade que se produzirá na metade final, esta opção da diretora cria também um desequilíbrio de que o filme todo se ressente, adernando um pouco. Mas o barco se restabelece no rumo. Nada de se estranhar num primeiro trabalho que parece anunciar, aliás, uma carreira bastante promissora.

Cineweb-26/3/2003

Neusa Barbosa


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