Sem amor

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Boris e Zhenya estão casados, mas se odeiam, por isso, vão se separar. Porém, após presenciar uma briga entre os pais, sem que eles percebam, o filho de 12 anos do casal desaparece.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

21/12/2017

Desde sua estreia no cinema, em 2003, com O Retorno, com o qual saiu premiado com a láurea máxima no Festival de Veneza, o cineasta russo Andrey Zvyagintsev se tornou um cronista do mal-estar contemporâneo de seu país. Às vezes herdeiro de outro Andrei, o Tarkovski, seus filmes são quase etéreos, parece que estão para se desmanchar no ar. Muito disso se deve ao diretor de fotografia Mikhail Krichman, com quem trabalhou em diversos projetos, inclusive em Sem Amor, seu mais recente, ganhador do Prêmio do Júri em Cannes e um dos favoritos ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira.
 
Nesse filme e não apenas nesse, na verdade, a dupla cria imagens embriagadas de apocalipse – afinal, apocalipses, pequenos e grandes, nacionais e pessoais, são os mediadores entre as imagens e as narrativas de Zvyagintsev. Em O Retorno, por exemplo, um pai desaparecido volta para casa – seus dois filhos precisam aprender a o amar (se é que ele é realmente o pai deles, afinal, só o conheciam por uma foto). Há uma atmosfera de ameaça de tragédia pairando o tempo todo – até que esta se concretiza.
 
Sem Amor também conta com pais e um filho ao centro. Boris e Zhenya (Alexey Rozin e Maryana Spivak) formam um casal que se odeia e de uma maneira doentiamente explosiva. Estão em vias de se divorciar, mas antes disso, seu filho de 12 anos, Alyosha (Matvey Novikov), presencia, sem que eles saibam, uma discussão violenta. No dia seguinte, o garoto desaparece. Teria sido raptado? Teria fugido para nunca mais voltar? Ou apenas fugido por algumas horas, mas algo grave aconteceu, impedindo-o de voltar para casa?
 
Aos poucos, Sem Amor constrói essas duas figuras. Quando Zhenya liga para Boris e diz que há dois dias o filho não aparece na escola e que irá chamar a polícia, ele responde: “Você está exagerando”.  Mas nenhum dos dois são planos, só bons ou apenas maus – existem nuances nessas caracterizações.
 
Boris e Zhenya são incapazes de se unir, nem na dor, nem no esforço comum de encontrar o pequeno desaparecido. O ódio mútuo é intoxicante – tal qual o filme, que com esses personagens representa alguns dos fracassos da Rússia de Putin: o vazio emocional que tenta ser aplacado pelo consumismo, a moral dúbia, a apatia burocrática. Enquanto isso, ao fundo, quase que casualmente – mas nada é casual aqui –, telejornais dão conta do estado das coisas.
 
O filme se passa em 2012, o ano em que Vladmir Putin foi eleito pela segunda vez, e as relações entre a Rússia e a Ucrânia são tensas – dois anos depois, resultaria na anexação da Criméia. A investigação e exposição política que Zvyagintsev, que assina o roteiro com Oleg Negin, não é tão direta e nem cínica como no filme anterior da dupla, Leviatã, mas é igualmente poderosa no sentido de expor a intersecção entre o público e o privado, entre o histórico e o pessoal. Tudo é construído de maneira um tanto elíptica, vaga, mas o resultado é um filme intoxicante, com imagens desafiadoras, como quando grupos de resgaste andam por uma floresta de árvores secas, coberta de bruma e neve, gritando “Alexey!”. E não há resposta porque, quando o apocalipse chega, só restam o caos e a destruição.

Alysson Oliveira


Trailer


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