Suburbicon - Bem-vindos ao paraíso

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Comunidade fechada, idealizada para ser o protótipo do sonho americano, em 1959, Suburbicon vive em paz até o dia em que se muda para lá a primeira família afro-descendente. A maioria dos moradores protesta e quer expulsar os recém-chegados. Seus vizinhos ao lado, os Lodge, não são tão radicais - mas eles escondem segredos muito mais sinistros.


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Crítica Cineweb

29/11/2017

Ator e produtor consagrado, vencedor de dois Oscar (como ator coadjuvante, em Syriana, 2005; como produtor de Argo, melhor filme em 2013), George Clooney tem no currículo como diretor seis bons longas mas não propriamente uma assinatura inconfundível. É o que se constata ao final de Suburbicon – Bem-vindos ao Paraíso, drama de humor negro que concorreu ao Leão de Ouro no Festival de Veneza 2017.
 
Culto, politizado e progressista, Clooney certamente visou a América trumpista quando se interessou em reciclar um roteiro há tempos guardado pelos irmãos Ethan e Joel Coen, seus autores originais. Na companhia de seu habitual parceiro, Grant Heslov, o diretor voltou suas baterias para um passado que fala do presente, situando sua história numa comunidade suburbana de classe média alta no ano de 1959.
 
Suburbicon foi idealizada para ser uma sociedade à parte, higienizada de tudo aquilo que seus moradores costumam considerar problemas, erigindo um mundo sistematizado pela homogeneização arquitetônica e humana. As casas e as pessoas são, assim, todas iguaizinhas. Por isso, essa paz vem abaixo quando se muda para o local a primeira família afro-americana, os Mayers.
 
Confrontados pela invasão da vida real, ou seja, a diversidade racial que impera fora de seus limites, os moradores deixam cair a máscara dos bons modos, tornando-se, aos poucos, uma verdadeira horda. O primeiro sinal é o cercamento da casa dos Mayers de cercas de madeira que impeçam a visão de sua existência pelos demais.
Com todo o potencial que tem essa história de dizer algo – que até diz – sobre os atuais tempos nos EUA (e fora deles) em termos de relações raciais, o filme dedica, na verdade, insuficiente desenvolvimento aos personagens do sr. Mayers (Leith M. Burke), da sra. Mayers (Karimah Westbrook) e do menino Andy (Tony Espinosa). E isto é decepcionante, ainda mais em se tratando deste diretor.
 
Andy Mayers, na verdade, é o personagem de sua família que tem mais diálogos, todos eles trocados com seu único vizinho tolerante, outro menino, Nicky Lodge (Noah Jupe). Se é evidente mostrar que duas crianças de cores diferentes podem, de fato, conviver e compartilhar experiências na mesma fase da vida, o fato é que o filme desloca seu centro real para a disfuncionalidade da família Lodge, em que salta mais claro o habitual humor negro sangrento dos Coen, que provavelmente sobreviveu de seu original.
 
Se os Lodge não aparentam ser racistas, destoando da unanimidade doentia de sua vizinhança, nem por isso eles podem ser considerados minimamente razoáveis. Sua casca de normalidade é quebrada a partir do momento em que sofrem um aparente assalto e dois estranhos (Glenn Fleschler e Alex Hassell) terminam por provocar a morte da matriarca da família, Rose (Julianne Moore).
 
A graça nesta escavação implacável da neurose desta classe média pseudomoralista está nos detalhes, acompanhando-se as reações do viúvo, Gardner Lodge (Matt Damon), e da cunhada, Margaret (Julianne Moore também), que decide ficar na casa para cuidar do sobrinho agora órfão. E é sublime o trabalho da direção de arte para recriar essa suburbia também no escritório de Gardner, para invocar novamente o quanto de loucura subsiste no subsolo desse grande sonho americano, tantas vezes desmantelado, na vida ou no cinema.
 
É uma pena que a direção não tenha conseguido articular tão bem os dois focos narrativos, o do assédio criminoso contra a família negra – e que reproduz episódio real ocorrido em Levittown, Pensilvânia, em 1957 – e o sinistro drama que se avoluma na casa dos Lodge. Mas não se pode dizer que faltem a Suburbicon elementos para uma reflexão sobre o atavismo do pensamento conservador norte-americano que levou ao atual estado de coisas. Tanto há 50 anos atrás como agora, sabe-se que esta conduta cega e intolerante nunca levou a nada de bom.

Neusa Barbosa


Trailer


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