A trama

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 1 votos

Vote aqui


Locais de filmagem


Sinopse

Olivia é uma escritora parisiense que, durante um verão, viaja a La Ciotat, em Marselha, para ministrar uma oficina de escrita criativa para jovens. Na medida em que o projeto avança, ela se depara com realidades que não conhecia.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

01/11/2017

Em alguns de seus melhores trabalhos, o francês Laurent Cantet está interessado em como as dinâmicas dentro de um grupo podem sintetizar uma sociedade. Foi assim em seu premiado Entre os muros da escola – que lhe rendeu a Palma de Ouro, em 2008 – e trazia um grupo de adolescentes numa escola em Paris, depois com Foxfire – Confissões de uma gangue de garotas, e Retorno a Ítaca, sobre um grupo de cubanos que se reúnem em Havana para comemorar o retorno de um amigo depois de 16 anos em Madri. Seu mais recente trabalho, A Trama, parte exatamente desse princípio, mas o filme é incendiário como Cantet nunca foi.
 
Roteirizado por Cantet e seu habitual corroteirista, Robin Campillo, o longa começa com um grupo de jovens na cidade de La Ciotat. em Marselha, que, durante um verão, sob a orientação de um famosa escritora parisiense, Olivia (Marina Foïs), escreverão um romance em conjunto. Não se gasta muito tempo com explicações sobre os garotos, que estão no limite entre a adolescência e a vida adulta, nem como ou porque foram escolhidos para essa oficina literária. Isso não importa – o que importa é como isso servirá de possibilidade de refletir sobre o presente e o legado da História.
 
Localizada no sul da França, La Ciotat é uma cidade que se expandiu em torno de um estaleiro, que empregou boa parte de sua população. Agora, com sua desativação, o local vive do turismo, mas também é a habitação de uma parcela de franceses (das mais diversas origens) sem emprego e jovens sem expectativas. Esse é o primeiro problema com que Olivia se depara. Eles não são os jovens parisienses com suas questões metropolitanas e seu ritmo de vida urbano. Ela encontra um grupo heterogêneo unido à força pelo seu projeto, com visões de mundo e esperanças distintas.
 
A herança histórica da região é forte no grupo. Não à toa, a história que começam a esboçar – um suspense envolvendo um assassinato num barco – incorpora fortes traços da realidade deles e do peso do passado que recai em seus ombros juvenis. Interessa a Olivia a relação entre literatura e sociedade, mas ela precisa quebrar o gelo com seus tutelados para que confiem nela e se abram.
 
Fosse apenas isso, A Trama já seria um grande filme – um suspense sobre a construção de um romance de suspense, no qual realidade e ficção se confundem. Mas, tal qual sua protagonista, Cantet está interessado na sociedade que formou esses personagens e, mais do que isso, aquela na qual eles vivem. Nesse momento, o filme levanta voo bem alto e seguro.
 
O jovem Antoine (Matthieu Lucci) emerge como uma figura dominante. Ele parece concentrar em si os dilemas e feridas da França (possivelmente de boa parte da Europa, por tabela) contemporânea. Ele começa sua participação no grupo de maneira tímida, faz poucas intervenções, tem poucas falas, até que narra a descrição de um acontecimento violento. Mesmo sendo ficcional, sua narração é o estopim para trazer à tona uma tensão, até então, latente no grupo. São jovens diferentes demais, com expectativas distintas, mas, ainda assim, com pontos em comum. Como lidar com esse caldeirão de cultura dentro de uma sala de aula? A voz que confronta Antoine com mais veemência e consciência social é Malika (Warda Rammach), jovem muçulmana, interessada na conexão entre o presente e o passado industrial da cidade. Antoine sempre tenta diminuí-la e diz que sua intenção é nobre, não mais do que isso.
 
Olivia, por sua vez, está cada vez mais aflita, pois percebe que o experimento da oficina está cada vez mais fora de seu controle. Existe uma tensão entre ela e Antoine que não é nada sexual, seu subtexto é mais de classe do que qualquer outra coisa. É aí que o filme revela o quanto os dois personagens são movidos por suas posições e condições sociais.
 
Formalmente, o filme tenta, também, trazer à tona as diferenças entre os dois mundos e tipos de personagens. Começa com um jogo de videogame e se revela interessado na disputa das narrativas, uma questão bem contemporânea. Quem sai na frente nesse embate são Olivia e Antoine, duas visões de mundo distintas mas frutos de um mesmo tempo. Conviver pacificamente seria a saída ideal, mas no mundo real, tal qual no jogo eletrônico, a sobrevivência talvez dependa de ações mais firmes.
 
Leia aqui entrevista com o diretor durante a 41a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, na qual o filme foi exibido na noite de encerramento.

Alysson Oliveira


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança