Vazante

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Sinopse

Minas Gerais, 1821. Depois da morte da mulher e do filho, no parto, o tropeiro português Antônio decide casar-se com a sobrinha de sua falecida esposa, a menina Beatriz. Mas, como ela ainda não teve a primeira menstruação, deve esperar para consumar o casamento.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

01/11/2017

Vazante, que teve sua première mundial abrindo a seção Panorama do Festival de Berlim 2017, constrói-se numa narrativa feita de muitos silêncios, que demarcam as relações familiares e sociais no Brasil-colônia de 1821, a partir da figura de um tropeiro português, Antônio (Adriano Carvalho).
 
Em seu primeiro trabalho solo, depois de alguns filmes em parceria, como Terra Estrangeira e Linha de Passe (com Walter Salles) e Insolação (com Felipe Hirsch), a diretora Daniela Thomas realiza uma leitura do patriarcado, da violência nas relações sociais e da escravidão e da apropriação predatória da natureza que marcou a história do Brasil num filme extremamente bem-realizado, denso, ritmado.
 
Homem rude e poderoso, Antônio volta de uma viagem com um lote de escravos para comerciar, encontrando em sua fazendo a mulher morta no parto, assim como o bebê. Tempos depois, resolve casar-se com a sobrinha de sua mulher, a menina Beatriz (Luana Nastas), mas deve esperar para consumar o casamento pois ela ainda não teve a primeira menstruação.
 
É singular como o filme elabora visualmente sua narrativa, em rostos que muito expressam sem dizer uma palavra e também nas paisagens da fazenda mineira que constitui seu principal cenário. Apoiada em pesquisa da historiadora Mary del Priore, a diretora, que roteiriza a história com Roberto Amaral, demonstra eloquência em cenas como um almoço familiar – onde as mulheres da casa são vistas sempre fora da mesa, sentadas ao lado, ou em pé, ou mesmo sentadas no chão, caso da menina Beatriz. Só os homens estão acomodados à mesa, sendo servidos.
 
Essa e outras sequências refletem a realidade patriarcal do período, em que mulheres eram dadas em casamento como gado, sem direito a vontade própria e passíveis de apropriação física e psicológica sem limites. É o caso de Beatriz, cuja solidão percorre os corredores e campos da fazenda, uma senhora da casa criança e sem consciência desse status, que parece ter mais em comum com os meninos escravos, como Virgílio (Vinicius dos Santos), um relacionamento evidentemente proibido.
 
Essa ligeira aproximação da sinhazinha-menina com alguns habitantes da senzala – como numa sequência em que ela divide com eles um mingau numa grande panela - de maneira alguma encurta as distâncias que, naquele momento, separam completamente, brancos e negros. Sequências retratam com bastante crueza os escravos apreendidos, trazidos acorrentados e a pé; as condições estafantes do trabalho agrícola e de suas moradias em palhoças; e a total subserviência esperada nos contatos diretos, mesmo de escravas como Joana (Geísa Costa), uma espécie de governanta. A exploração feminina também fica patente na figura da escrava Feliciana (Jai Baptista), escolhida para desfrute incondicional pelo patrão. 
 
Uma das características mais notáveis de Vazante é o domínio de seus elementos técnicos, numa narrativa fluente apoiada na fotografia em P&B de Inti Briones, na montagem de Estevan Schilling e Tiago Marinho e num extraordinário trabalho de som de Vasco Pimentel, contando essa história num ritmo lento que espelha a época que retrata mas não a impede de pulsar. Isto joga o espectador no centro dos acontecimentos, cuja carga dramática não cessa de se acelerar.
 
Dentro deste extraordinário elenco, é de se destacar a presença de Juliana Carneiro da Cunha, como dona Zizinha, a sogra de Antônio; Sandra Corveloni (premiada em Cannes por outro trabalho de Daniela, Linha de Passe), como Ondina, mãe da menina Beatriz; Fabrício Boliveira como o negro alforriado Jeremias, um ex-oprimido que vira opressor; e o carismático Toumany Kouyaté, como o escravo rebelde cujo idioma não é entendido por ninguém, situação que recria uma das tragédias da diáspora africana na escravidão, separando famílias e dispersando grupos da mesma etnia para dominá-los pela violência.
 
Todos esses elementos combinados, contando com assessoria da cantora Anna Kiefer na pesquisa musical, formam uma história capaz de erguer uma ponte entre nosso passado e o presente conturbado – uma intenção anunciada pela própria diretora, num filme que dialoga, neste e em outros sentidos, com outro trabalho recente, Joaquim, de Marcelo Gomes.
 
No Festival de Brasília 2017, em que o filme teve sua première nacional e obteve dois prêmios – melhor direção de arte e atriz coadjuvante (Jai Baptista) -, ele foi cercado por um debate acirrado em torno de seu retrato das relações raciais, que dividiu opiniões e alimentou polêmicas. O melhor a fazer é assistir ao filme com a atenção que ele requer e chegar às próprias conclusões. Evidentemente, a discussão sobre o passado e o presente das turbulentas relações raciais no País não se esgotará aqui.

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 12/11/2017 - 18h33 - Por Maria Eugenia Frota da Rocha Um filme esplêndido. Densidade dramática, fotografia esplêndida. Foi Com grande alegria que me vi conduzida por um trabalho perfeito, arrebatador. Cinema na acepção da palavra. A beleza de um Brasil imperial e rural luso brasileiro inaugurando a agricultura e depois a pecuária. Simplesmente comovente a cena em que António acaricia o pelo de uma vaca. Linda a metáfora da transição da mineração, da dureza, para um amolecimento dos corações. Muito muito lindo o filme!!
  • 14/11/2017 - 04h20 - Por Francisco Azevedo Belíssimo filme com produção e elenco de primeira. Tanta pesquisa da diretora não foi em vão, além de belas narrativa e imagens, o filme nos força a fazer diversas reflexões q não só a da chaga histórica representada pela escravidão no Brasil. Filme pra ver e rever.
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