Polícia Federal - A lei é para todos

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Sinopse

Investigando um caso de contrabando, a polícia federal encontra um elo com uma rede de doleiros, que levará ao início da operação Lava-Jato.


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Crítica Cineweb

30/08/2017

A grandiloquência de Polícia Federal – A Lei é para Todos, de Marcelo Antunez, começa pelo título, que pega carona nos noticiários para produzir uma ficção policial revestida de ingredientes heroicos. Os heróis, no caso, evidentemente, sendo os policiais federais que vêm sustentando a Lava-Jato, que predominam, na tela, até sobre o onipresente juiz da operação, Sergio Moro (Marcelo Serrado).
 
Moro, aliás, é o único integrante da Lava-Jato a aparecer com seu próprio nome e nem aparece tanto assim. Ele é mais um coadjuvante dos policiais da tela, que apesar de notoriamente inspirados em figuras conhecidas, usam nomes fictícios – caso do delegado Ivan Romano (Antonio Calloni) e dos agentes Beatriz (Flávia Alessandra), Júlio César (Bruce Gomlevsky) e Vinicius (João Baldasserini). Entre os procuradores, Ítalo Agnelli (Rainer Cadete) evidencia sua identidade com uma notória semelhança física com Dalton Dellagnol. O “japonês da federal”, uma exceção, é um que faz uma breve aparição, em carne e osso, na tela, sendo identificado pelo codinome que o tornou famoso.
 
Já os réus ou acusados são todos chamados pelo nome próprio, caso do doleiro Alberto Youssef (Roberto Birindelli), primeiro a surgir na tela, ainda às voltas com a investigação do Banestado que o revelou. Logo a seguir, o filme faz sua declaração de fé através de uma inserção animada sobre a história do Brasil, defendendo que, desde o descobrimento, o país foi assolado por ratos, os reais que vieram nas caravelas e os da corrupção, com direito a imagens fugazes de diversos personagens do noticiário, com destaque para o caso do “mensalão”.   
O roteiro, assinado por Thomas Stavros e Gustavo Lipsztein, porém, não pretende repassar outro momento histórico que não o período que vai desde a montagem da equipe de Curitiba, investigando uma história de contrabando que veio a descobrir o fio da meada dos doleiros da Lava-Jato – inclusive o mesmo Youssef, perdoado no Banestado por Moro, com a promessa, descumprida, de não-reincidência – até a controvertida condução coercitiva de Lula (Ary Fontoura), em março de 2016.
 
Entre uma coisa e outra, os policiais federais são mostrados como personagens idealizados, permanentemente imbuídos de motivação messiânica, sem nenhum interesse pessoal, e capazes de identificar, de maneira quase mágica, os meandros de crimes que motivaram diversas prisões, como a de Paulo Roberto Costa (Roney Facchini) e Marcelo Odebrecht (Leonardo Medeiros). Os policiais dedicam especial atenção às delações, dando a entender que todas elas levaram a provas incontestes, como número de contas no exterior. Nunca houve qualquer desvio, tropeço ou excesso neste caminho.
 
Um problema num filme que se pretende colado a “fatos reais” – aliás, sobejamente conhecidos - é fazer uma leitura seletiva desses mesmos fatos, que ignora, por exemplo, os frequentes vazamentos de partes das delações à imprensa – uma ferramenta nada desprezível para a Lava-Jato, assumidamente apoiada no poder de fogo da mídia. Também é evidente que o grande alvo do filme é Lula, cujo nome é lembrado nos casos do triplex e do sítio em Atibaia, além de colocar-se suspeição sobre suas palestras e viagens ao exterior na companhia de empreiteiros que depois realizariam obras em outros países.
 
O grande defeito, então, deste filme – que teve produção cuidada e cara, estimada em R$ 16 milhões, de patrocinadores privados que pretendem permanecer em sigilo – é o maniqueísmo para retratar situações complexas, como se se tratasse apenas de uma boa e velha história de mocinhos e bandidos. Com a citação de nomes de acusados, inclusive em processos inconclusos (portanto, ainda sujeitos a absolvição), e de organizações como CUT e MST (mencionados generosamente associados a uma suposta intenção de tumultuar o país), o filme evidentemente se coloca com um viés político-partidário, como uma espécie de propaganda embalada como uma ficção policial, um discurso de esculhambação contra alguns em detrimento de outros, estes, super-heróis de cujas intenções e métodos não se permite alimentar qualquer dúvida, justificando de cambulhada escutas ilegais (inclusive da presidenta da república) e conduções coercitivas desnecessárias, duas das mais evidentes manifestações dos estados de exceção.
 
Ambição, evidentemente, não falta aos produtores do filme, que ao final sugerem: “Não acabou, está só começando”. Uma clara alusão a possíveis sequências, traduzindo uma aposta de que o filme será um sucesso de bilheteria. A conferir se uma visão tão unilateral da crise vivida pelo Brasil nos últimos anos será realmente abraçada pelo público, ainda mais tendo em vista inúmeras atualizações do noticiário posteriores ao período coberto pela narrativa.

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 08/09/2017 - 19h08 - Por Gildo Araújo Como não pensar em Jogo das Decapitações de Sergio Bianchi, me refiro ao parque temático sobre a tortura que atingiu a classe média por uns 15 anos, mesma classe média que explorou bastante as suas condições de vítimas, e se esqueceu dos pretos e pobres torturados desde o Brasil Colonial.

    Então é isso? Vamos ficar indignados com escutas ilegais (inclusive da presidenta da república) e conduções coercitivas desnecessárias?

    Quem clamará pelos pretos e pobres?

    Lamentável!
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