Eva não dorme

Eva não dorme

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Locais de filmagem


Sinopse

Em 1952, aos 33 anos, morre a primeira-dama argentina Evita Perón. Visando combater o culto à "mãe dos pobres e descamisados", os militares decidem roubar o cadáver. No período em que ele permanece escondido, desenrolam-se episódios dramáticos, sem que a devoção popular por Evita esmoreça.


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Crítica Cineweb

18/07/2017

O diretor e roteirista argentino Pablo Agüero apropria-se do mais influente fantasma da história argentina, Evita Perón, para dedicar-lhe um filme que faz jus tanto à persistência surreal do mito quanto ao seu caráter político. A ambiguidade do relato começa a partir do título, Eva não dorme, ponto inicial de uma história ambientada em ambiente onírico, como se se passasse entre realidade e fantasia e uma não fosse menos verdadeira do que a outra.
 
Essa dualidade narrativa é sustentada pelo hábil entrelaçamento entre imagens de arquivo – que apresentam personagens reais como a própria Evita e Juan Domingo Perón – e as sequências ficcionais, que ocorrem em ambientes de iluminação peculiar, como um teatro de sombras. Nas imagens de arquivo, em preto-e-branco, mostra-se o cortejo fúnebre de Evita, morta precocemente de um câncer, aos 33 anos, em 1952. Nada melhor do que esse documento para atestar a idolatria popular dedicada à primeira-dama argentina, evidenciada nas multidões comovidas pelas ruas, fazendo filas imensas para visitar o esquife em exposição.
 
O relato ficcional, em três partes, começa com o embalsamador, Pedro Ara (Imanol Arias), que executa o seu trabalho no corpo de Evita (Sabrina Macchi) numa atmosfera surreal que remete a uma energia sensual reprimida, um dos muitos signos deste culto a um cadáver que atravessa o tempo. Três anos depois, em 1955, o golpe militar do general Pedro Aramburu volta-se contra essa devoção, proibindo não só as fotos de Evita como até menções ao nome dela.
 
Mas os militares foram ainda mais longe – sequestraram o corpo de Evita, numa operação secreta comandada pelo coronel Carlos Eugenio Koenig (Denis Lavant), num pequeno carro, acompanhado apenas de outro oficial, o cabo Robles (Nicolás Goldschmidt), que nem desconfia da preciosa carga que está levando.
 
Nesta segunda parte, intitulada “O transportador”, constrói-se um eficiente duelo entre o coronel e o cabo, que circulam por ruas tomadas por distúrbios, dos quais só se ouve o som,  vendo-se apenas clarões luminosos, sugerindo explosões. O duelo, a princípio apenas verbal, evolui para um confronto físico, filmado de maneira absolutamente brilhante, com uma câmera que sobe e deixa ver o caixão aberto.
 
Passa-se outro lapso de tempo, em que ocorrem o golpe militar de 1955 e o esmagamento de uma insurreição em 1969, cuja repressão sangrenta custa a vida de 400 pessoas num bombardeio à Plaza de Mayo. A terceira parte focaliza o ditador, o general Aramburu (Daniel Fanego), sequestrado por jovens guerrilheiros Montoneros, que pretendem trocá-lo pelo corpo desaparecido de Evita. O tenso diálogo entre o general e os guerrilheiros antecipa um dos capítulos mais sangrentos da história argentina, que se dará a partir de outra ditadura militar, em 1976.
Dois anos antes, 22 anos depois de seu sequestro, o corpo de Evita terá sido, finalmente devolvido à sua pátria, durante um breve interregno de governo civil, justamente liderado por Perón, de volta do exílio em 1973, substituído por sua nova mulher, Isabelita, sua vice, quando ele morreu, também em 1974.
 
Funcionando como um intrigante narrador, o ator mexicano Gael García Bernal interpreta o almirante Emilio Massera, um dos integrantes da junta militar que tomou o poder em 1976 e tido como o arquiteto da repressão que custou a vida de aproximadamente 30.000 opositores. Os comentários deste personagem, construídos no roteiro de Agüero, são um eloquente testemunho da mentalidade autoritária. Amargamente, este Massera lamenta a não-destruição do corpo da primeira-dama – o que foi cogitado pela Marinha, que a sequestrou – e também a sua volta: “As bestas a reclamam”, comenta, referindo-se ao povo que ele despreza, tanto quanto aquela que ocupa um lugar insubstituível em sua devoção.
 
Dito isso, Eva não dorme constrói um eficiente balanço entre as mitologias do peronismo e do militarismo, essas duas forças que embalaram a política argentina nos últimos 60 anos, num tom de fantasmagoria e pesadelo que não deixa de sugerir a falta de espaço para a racionalidade e a transparência.

Neusa Barbosa


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