Cartas da guerra

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Jovem médico português é enviado para a guerra colonial em Angola em 1971. Ele manda cartas à sua mulher, que está grávida, contando a experiência devastadora. O filme é baseado em memórias do escritor português António Lobo Antunes.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

05/07/2017

Tal como a literatura do português António Lobo Antunes (que lhe serve de base), Cartas da Guerra não é um filme fácil, mas, ao mesmo tempo, é uma experiência recompensadora. Sua narrativa é construída a partir das cartas que ele enviou à sua primeira mulher, Maria José, quando estava em Angola, entre 1971 e 1973, nas guerras coloniais. Dirigido e roteirizado por Ivo Ferreira, o longa foi exibido em competição no Festival de Berlim.
 
António (Miguel Nunes) é um jovem médico militar em serviço a leste de Angola. Como é aspirante a escritor, escreve cartas quase diárias à sua mulher, grávida, que ficou em Portugal. Essas mensagens, conhecemos pela voz dela, lidas uma a uma. O que, então, se desenha não é apenas uma história de amor e saudade, mas o tenebroso passado colonial português.
 
Dessa forma, a perspectiva pessoal de um médico-soldado ganha o fôlego de uma experiência nacional, da perpetuação da memória histórica de uma guerra assustadora – tanto para os jovens soldados enviados para a colônia, mas especialmente para os angolanos. Tudo isso é visto pelos olhos do narrador, numa bela fotografia em preto e branco, assinada por João Ribeiro, o mesmo de Os Maias, que de certa forma registra um passado que ficou para trás, mas não o suficiente para não ressoar no presente.
 
Ferreira, em seu roteiro (coescrito com Edgar Medina), consegue a grande proeza de se apropriar do escritor Lobo Antunes e transformá-lo em seu personagem, não realizando, assim, uma mera adaptação da vida de um homem famoso. É uma estratégia arriscada mas, bem realizada, traz profundidade ao filme e acaba de vez com a expectativa de uma biografia. Talvez o romance Os Cus de Judas, que o escritor publicou em 1979, esteja mais próximo da “biografia” do que este filme. O diretor sabe como fazer uma adaptação sem se prender à expectativa do original. Cinema é cinema, literatura é literatura, mas ambos podem tirar proveito um do outro, sem abrir mão de suas especificidades.
 
Há todo um grupo de colegas oficiais. Como o superior, um capitão, a quem o protagonista empresta o primeiro capítulo de um livro que está escrevendo, ou um major que o procura para que diagnostique uma doença – “qualquer doença, há tantas no mundo” - apenas para que possa ser dispensado e voltar para casa. Este personagem é interpretado por Ricardo Pereira – conhecido também por participar de algumas novelas no Brasil, como A Regra do Jogo.
 
Quando Ferreira retrata a experiência coletiva dos militares, se aproxima de Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick. A relação dos portugueses com a natureza também parece ecoar a dos militares do filme americano. O longa talvez custe um pouco a se encontrar – ou a acostumar o seu público com as cartas lidas pela mulher do personagem. Quando, finalmente, isso acontece, o resultado é impressionante, e sua força, descomunal.

Alysson Oliveira


Trailer


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