Éden

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Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Karine tem 30 anos, está grávida e acabou de perder o marido, assassinado. Procura alívio para seus problemas junto a uma igreja pentecostal, dirigida por um pastor, Naldo. Ao mesmo tempo que encontra acolhida, percebe estar sendo manipulada para atender aos interesses do pastor, que pretende usar a fé dos fieis como propaganda e fonte de lucro.


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Crítica Cineweb

07/05/2017

Éden, terceiro longa do carioca Bruno Safadi (Meu nome é Dindi) inscreve uma grande presença feminina, da atriz Leandra Leal, como Karine, mulher de 30 anos, grávida de oito meses, que encara a perda do marido (André Ramiro), mais uma morte violenta na Baixada Fluminense.

 
Safadi trabalha no registro de uma câmera muito colada à pele de seus personagens, em que a fotografia “suja” de Lula Carvalho procura reproduzir, numa chave naturalista no visual e expressionista nas interpretações, a voragem de um cotidiano bruto, em que pessoas pobres e simples, como Karine e seu irmão (Julio Andrade) se veem emparedados entre uma miséria física e cultural, a violência onipresente e o assédio de uma saída mística, oferecida pelo pastor evangélico Naldo (João Miguel).
 
Algumas cenas ficam na memória, caso da inicial, que mostra Karine deitada no fundo de uma piscina vazia – a piscina e a água serão retomadas depois, como signos de uma procura de limpeza, de mergulho numa outra água, numa outra pulsação. Outra boa sequência é a do culto em que o irmão de Karine a leva pela primeira vez ao encontro do pastor e de sua Igreja do Éden – uma fórmula de salvação compulsiva, fundamentalista, que procura excluir vários elementos da vida cotidiana, caso da TV, como coisas “do demônio”, prometendo uma redenção que una à força as duas pontas das contradições, por mero voluntarismo e justaposição. No caso, Naldo tenta conciliar, sob o mesmo teto, Karine e também a namorada grávida do jovem matador de seu marido.
 
Muito do que o filme trata se passa pelo rosto e pelo corpo de Leandra Leal, uma das melhores atrizes atuais, que transmite a desconfiança, a fragilidade, a busca de esperança, a instabilidade e finalmente uma resistência a tudo que se impõe sobre ela, inclusive essa fórmula de religião opressiva que não comporta diálogo, apenas sujeição.
 
Há um discurso interessante no filme – ainda que não inteiramente novo – sobre a religião como espetáculo, quando o pastor “dirige” as duas grávidas diante de uma câmera, produzindo um filme que utilizará em sua evangelização midiática (ele vende os próprios DVDs também como fonte de sustentação de seu Éden).
 
Toda uma mitologia bíblica, em torno das palavras do pastor, do nome com que batizou sua igreja e da metáfora da água como renovação permeiam a narrativa de Éden, ao mesmo tempo negando essa mitologia, insistindo numa fotografia dessaturada, que entrega a feiura dessas vidas acuadas, de que a única saída parece ser empunhar o próprio corpo, a própria natureza, como faz Karine na bela sequência final.
 
No fundo, é uma história simples, de intensidade crua, em que o diretor-roteirista aposta numa dramaturgia à flor da pele, persistindo às vezes numa exasperação e num excesso que fazem parte de tudo aquilo o que ele quer dizer. Por tudo isso, Éden não é um filme fácil. É uma obra de procura e de perplexidade, que vale seguir.

Neusa Barbosa


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