Joaquim

Ficha técnica


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Sinopse

No século 18, o alferes Joaquim José da Silva Xavier sonha com uma promoção a tenente, empenhando-se na caça a contrabandistas e na procura de ouro no sertão mineiro. Mas a desigualdade desse Brasil povoado por mestiços, escravos e índios explorados também entra na consciência do futuro herói da Inconfidência.


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Crítica Cineweb

12/04/2017

Uma sensação de estranheza pode percorrer o espectador brasileiro de Joaquim, o novo filme do cineasta pernambucano Marcelo Gomes – que representou o Brasil na competição oficial do mais recente Festival de Berlim.
 
Como não se pretende uma cinebiografia do famoso líder da Inconfidência, Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o filme dá-se ao luxo de ignorar preâmbulos informativos ou mesmo vincular estritamente o personagem aos fatos mais conhecidos de sua vida – embora fique clara esta ligação a partir da narração em off com que o fantasma do protagonista abre a história.
 
Joaquim se coloca declaradamente como uma crônica de época, procurando no Brasil de traços incertos do século 18 as pistas para um desenvolvimento desequilibrado e as profundas desigualdades sociais que, desde então, assolam a nação.
 
Roteirizado também por Gomes, o filme explora as lacunas e lendas em torno da vida do protagonista – sobre quem, afinal, pouco se sabe com exatidão fora dos autos da Inconfidência. Permite-se, assim, a liberdade de imaginar quem ele pode ter sido, a partir da visão de um Brasil povoado majoritariamente por mestiços, escravos e índios, explorado por um ávido regime colonialista mas já dando sinais de que uma sociedade ensaiava existir por aqui.
 
Assim, Joaquim (Julio Machado) é apresentado como o devotado alferes a serviço da Coroa portuguesa, encarregado de caçar contrabandistas de ouro pelos caminhos inóspitos do sertão mineiro. Sonha com uma promoção a tenente, que lhe permitiria realizar o sonho de comprar a escrava Preta (Isabel Zuaa), por quem é apaixonado.
 
Nada sugere que este homem simples, mas com alguma instrução e prática odontológica – esta, revelando mais uma face da precariedade na vida da colônia – vá se transformar num rebelde. Por seus sonhos, ele parece mais um integrante de uma incipiente classe média que ainda nem propriamente existe. No país do século 18, a maioria da população é desprovida de direitos e até de planos de emancipação. Só a elite administrativa portuguesa e uma pequena quantidade de proprietários locais pode aspirar a algum conforto e satisfação.
 
Empenhado num naturalismo profundo, o filme não poupa detalhes desta vida nos rudes trópicos, em que a rotina do trabalho do próprio Joaquim é levada no lombo de burros, no meio da mata fechada, do calor, dos mosquitos e da falta de condições de higiene. Tudo isso é traduzido com mais contundência no segmento em que o alferes é encarregado pelos superiores de buscar ouro no chamado Sertão Proibido, local dos mais inóspitos e que foi filmado nos arredores de Diamantina (MG).
 
Joaquim empenha-se no esforço de despertar os instintos e a imaginação do espectador ao propor-lhe situações mostrando a interação do protagonista com as camadas oprimidas e sua aproximação da elite ilustrada que, finalmente, deve ter-lhe dado os meios para a conscientização que alterou drasticamente sua trajetória. Mas não menos do que o contato, muito provável, com a informação sobre os quilombos que semeavam a revolta nos rincões do país, ilustrada por uma outra transformação, a da escrava Preta.
 
Por esse processo, o filme constitui uma fantasia histórica que tem os olhos voltados para uma reflexão sobre o presente, projetando em seus sinais os sintomas do mal-estar contemporâneo do país. E assim, desprovida de muletas didáticas, se afirma como uma obra instigante e eficaz.

Neusa Barbosa


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