Ônibus 174

Ficha tcnica

  • Nome: Ônibus 174
  • Nome Original: Ônibus 174
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Brasil
  • Ano de produo: 2002
  • Gnero: Documentário
  • Durao: 128 min
  • Classificao: 14 anos
  • Direo: José Padilha
  • Elenco:

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Nota Cineweb

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Crtica Cineweb

14/01/2003

Difícil imaginar um filme de terror mais apavorante. Nem há roteirista qualquer do mundo, por mais delirante que seja, que pudesse inventar uma história tão absurda, cruel, dolorosa e tragicamente humana, nem tão poderosa síntese social e política do Brasil, do que o enredo deste documentário, infelizmente verdadeiro em seus mínimos detalhes.

Mais uma vez a realidade superou de longe a ficção, a primeira atravessando a segunda de ponta a ponta, como um afiado punhal. É com essa sensação de lâmina espetada no peito que se assiste a este filme, que reconstrói a trajetória de Sandro do Nascimento - o seqüestrador do ônibus 174, que em 12 de junho de 2000 manteve vários passageiros sob a mira de um revólver durante horas, paralisando o Rio de Janeiro. Um drama que manteve o Brasil todo de respiração suspensa, com a TV transmitindo tudo ao vivo, e que culminou com a morte de uma das reféns, Geísa Gonçalves - com tiros disparados por Sandro -, e do seqüestrador, sufocado na viatura depois de rendido, pelos policiais que o prenderam e se deram o direito de fazer justiça com as próprias mãos.

Mais do que um filme, Ônibus 174 é um verdadeiro manual de funcionamento da questão social brasileira, em que emerge o perfil de Sandro do Nascimento - um sobrevivente da chacina dos meninos da Igreja da Candelária, também no Rio, em 1993 - bem como uma vigorosa reconstituição do próprio seqüestro, a partir de cinco horas de imagens captadas ao vivo por emissoras de televisão, entrevistas com familiares, amigos e parentes de Sandro, de algumas das reféns, e do viúvo da vítima Geísa, bem como de policiais que participaram da operação (um deles incógnito, de máscara, porque o batalhão a que pertence, o BOPE, proibiu as entrevistas de seus funcionários durante o governo de Anthony Garotinho).

Desse minucioso trabalho de reportagem, surgem também detalhes desconhecidos - como o fato de que o seqüestrador não era um menor abandonado. Sua mãe, Clarice, era uma pequena comerciante de São Gonçalo, assassinada diante dos olhos do menino Sandro, que tinha na época 9 anos de idade. Uma cena que o traumatizou e esteve por trás de sua atitude de abandonar a família, tempos depois. A partir daí, Sandro ganhou as ruas e nunca mais encontrou um eixo. Caiu no crime, em instituições de menores, passou pela cadeia, fugiu, tentou, desistiu e finalmente abraçou o caminho da violência.

Uma qualidade do diretor é nunca psicologizar demais o relato, não esquecendo de buscar um equilíbrio inserindo, também, aspectos como as deficiências técnicas dos policiais que participavam da negociação com o seqüestrador e a interferência de autoridades que não estavam no local - como o secretário da segurança e o governador Garotinho.

Um dos depoimentos mais impressionantes é de um "assaltante profissional" - cujo rosto é escondido por uma máscara -, clone assustador do que o próprio Sandro parece ter se tornado nos últimos tempos de sua vida. Esse assaltante, que conheceu Sandro, fala friamente do episódio do seqüestro, analisando-o de seu ponto de vista de bandido assumido - dizendo que o seqüestrador morto errou ao não ter, por exemplo, comprado uma granada, "que na favela é barato". Mais arrepiante é seu comentário, também sem trair nenhuma culpa, de que, quando o assaltado não tem dinheiro, ele joga álcool e queima a vítima. Que tipo de sociedade está gerando esses monstros? O medo que os cidadãos comuns sentem deles precisa ser enfrentado com informação genuína sobre seu processo de formação - coisa que este filme fornece com fartura e é o ponto de partida para uma reflexão sobre como evitar que tudo isso se repita.

Cineweb-6/12/2002

Neusa Barbosa


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