Hiroshima, Meu Amor

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Uma atriz francesa está em Hiroshima, onde roda um filme sobre a paz. Na cidade, conhece um arquiteto japonês com quem começa um caso amoroso. Feridas e traumas pessoais e históricos emergem e assombram aos dois.


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Crítica Cineweb

16/02/2017

Se existe uma problemática que se materializa no clássico Hiroshima, Meu Amor é a das possibilidades e impossibilidades de representação. O primeiro longa ficcional de Alain Resnais – que na sequência faria o intrincado O Ano Passado em Marienbad – começa como um documentário sobre as bomba atômicas de 1945, uma lançada sobre Hiroshima, outra sobre Nagasaki. Aos poucos, transforma-se numa meditação sobre a memória e a paixão.
 
O roteiro original da escritora francesa Marguerite Duras empresta a estrutura direto do Nouveau Roman – uma novidade na década de 1950, quando o filme foi feito –, e questiona se existe realmente uma forma de representar um desastre do tamanho daquele que afetou as duas cidades japonesas durante a Segunda Guerra. Resnais já havia feito isso em seu documentário Noite e Neblina, sobre o Holocausto, mas, aqui, radicaliza na forma, rompendo fronteiras entre ficção e documentário.
 
Em um de seus ensaios mais famosos, o filósofo alemão Theodor Adorno questiona a possibilidade da narrativa após a Primeira Guerra Mundial. A seu ver, o conflito causou uma cicatriz tão profunda que qualquer narrativa se tornaria vã. Acontece que, como ele mesmo diz, a forma do romance exige uma narrativa, assim como o cinema. Na impossibilidade de construir uma narrativa sólida, a dupla Duras/Resnais entrega-se a algo mais impressionista.
 
O resultado é um filme sobre a experiência da guerra e suas fraturas, tendo como personagem central uma atriz (Emmanuelle Riva) que está em Hiroshima para fazer “um filme sobre a paz”. Ela passa uma noite com um arquiteto japonês (Eiji Okada). A partir desse momento, suas memórias afloram e trazem à tona a lembrança do caso que teve com um soldado alemão (Bernard Fresson), durante a guerra. O resultado foi uma humilhação pública.
 
Com uma bela fotografia em preto e branco assinada por Sacha Vierny e Michio Takahashi, Hiroshima, Meu Amor é um filme que aprisiona em si um momento, talvez o fim da experiência modernista. Lançado em 1959, às portas da década mais revolucionária já vivida e do início do pós-modernismo, o longa de Duras/Resnais é um dos últimos suspiros, de certa forma, de uma estética cubista.
 
O fluxo contínuo do tempo, embaralhando passado e presente, transforma a tragédia numa poesia visual sobre a fragmentação da experiência – a da própria cidade (durante a guerra e depois do bombardeio) e da atriz e do arquiteto. As duas profissões são emblemáticas: uma tem a ver com a representação e a outra, com a (re)construção – ou seja, o tempo e o espaço.
 
O duelo formal de Hiroshima, Meu Amor pode estar exatamente entre esses dois elementos. A reconstrução da cidade que mira no futuro e o passado que tenta não ser engolido pelo presente se digladiam. Do embate, os estilhaços formaram as subjetividades das personagens, dos moradores daquele lugar, do público. Assistir ao filme (em cópia restaurada) mais de meio século depois é uma outra experiência, com a qual nossa mentalidade moldada na pós-modernidade pode ter dificuldade de se encontrar. Mas é também essencial, no sentido da (re)descoberta de um filme capaz de encapsular em si um período, e, por que não?, uma experiência delineada a partir do problema da representação.

Alysson Oliveira


Trailer


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