Blow-Up - Depois daquele beijo

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Sinopse

Thomas é um fotógrafo de moda que, casualmente, fazendo imagens num parque, acredita ter registrado um crime. A partir desse momento, sua vida sai de controle.


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Crítica Cineweb

30/11/2016

O que tem a dizer Blow-Up – Depois daquele beijo meio século depois de sua estreia? Muito. Lançado em 1966, no meio daquela década que mudou o mundo, o longa retrata a sociedade ocidental em pleno processo de transformação, em plena era em que a renovação era uma aspiração possível e a utopia estava cristalizada, pronta para entrar em vigência. O que aconteceu, então, com aquele mundo que se transformou nisso que é hoje?
 
O final daquela década e a seguinte, no Brasil e no mundo, foram marcados por um movimento contrário àquilo tudo que progrediu nos loucos anos de 1960. A ascensão do neoliberalismo veio jogar por terra os sonhos libertários, contando com figuras como Ronald Reagan e Margareth Thatcher.
 
O longa de Michelangelo Antonioni – escrito por ele, Tonino Guerra e Edward Bond, a partir de um conto do argentino Julio Cortazar (Las Babas del Diablo) – traz em si, em toda sua estranheza e estranhamentos, a cristalização de um momento histórico cultural que vai muito além da Swinging London, e é “melhor compreendido como no processo histórico de pós-modernização, em que a decisiva modulação da imagem visual para a auditiva é tão fundamental quanto paradoxal, dada a afinidade universal da cultura pós-moderna com a visibilidade e a espacialidade”, conforme diz o crítico cultural norte-americano Fredric Jameson, em seu livro The Geopolitcal Aesthetic, de 1992.
 
Ao centro da trama está um fotógrafo de moda, Thomas (David Hemmings), que acidentalmente pode ter registrado um crime, enquanto fazia fotos aleatórias de uma briga de casal num parque em Londres. A mulher que ele fotografou, Jane (Vanessa Redgrave), acaba procurando-o e exigindo o negativo das imagens que ele fez naquela manhã. Ele entrega um filme em branco, e, curioso, revela as fotografias para encontrar uma mão com uma arma saindo do meio dos arbustos. Mais tarde, no mesmo parque, encontra um corpo escondido.
 
Ganhador do Grande Prêmio no Festival de Cannes 1966, o filme traz em si um questionamento sobre a união e separação do som e da imagem. Em que acreditar? As imagens das fotografias são confiáveis? Quando Thomas encontra o corpo no parque, foge porque se assusta com o barulho de galhos sendo pisados? E o que dizer do icônico jogo de tênis em mímica sem raquete nem bola, mas que incorpora o ruído de uma bola tocando no chão? É um filme estranho, realmente, mas apenas um filme estranho como esse, parece dizer Antonioni (em seu primeiro filme em inglês), é capaz de tentar compreender o seu tempo. Tarefa ingrata.
 
Meio século depois, na era em que a imagem (smartphones, redes sociais e afins) se torna uma das principais manifestações culturais (talvez sociais até), Blow-Up soa apocalíptico ao colocar em dúvida a confiança dos olhos e ouvidos. Devemos crer em tudo o que vemos e/ou ouvimos? Nossos próprios sentidos não estariam nos traindo? A mercantilização das imagens, sons, símbolos da cultura da juventude da época é a clara crítica do diretor a essa sociedade do espetáculo pautada pelo coolness londrino.
 
O fato de não ser inglês permite ao diretor um olhar mais crítico – para alguns até frio – da Londres dos anos de 1960. Ao construir uma geografia peculiar da cidade, o cineasta italiano parece investigar uma distopia disfarçada de algo bom. A profusão cultural da época, seus excessos de opções (de música, de roupas, de filmes etc) já dão conta da exacerbação da sociedade de consumo que seguiu nas décadas seguintes. Nunca no mundo tivemos tantas opções das mesmas coisas. Talvez o problema esteja exatamente aí: muito do mesmo, e, nesse sentido, Antonioni é brilhante em satirizar a sociedade que está se decantando.
 
Mas, voltando à pergunta inicial, Blow-Up é também cinema-nostalgia. Saudade de um tempo de experimentação – no cinema, na vida – que o século XXI não estimula. A zona de conforto – ela mesma podendo induzir a um consumo desenfreado – se dá por feliz em oferecer muitas opções da mesma coisa disfarçadas em novidades. E, por fim, o jogo de tênis, sem que percebamos, decreta o fim da década de 1960, o fim da Utopia. Enquanto pudemos acreditar que haviam bola e raquetes, estávamos sonhando. Quando a bola cai no chão e passa a fazer barulho, percebemos que estamos condenados a viver num mundo fadado ao fracasso. E o olhar desolado de Hemmings no final do filme é a prova mais concreta disso.

Alysson Oliveira


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