Animais fantásticos e onde habitam

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Sinopse

É 1926 e o magizoologista inglês Newt Scamander vem a Nova York numa missão secreta, envolvendo um de seus animais especiais, acompanhado apenas de sua maleta mágica. Num ambiente carregado de vigilância e intolerância, ele vai viver grandes aventuras ao lado das irmãs Tina e Queenie Goldstein e de um "não-maj", Kowalski, que testemunhou sem querer as estrepolias do bruxo estrangeiro.


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Crítica Cineweb

03/11/2016

Do grande baú que gerou os livros e filmes sobre o bruxinho Harry Potter, ou seja, a imaginação da escritora britânica J.K. Rowling, vem o que pretende ser uma nova franquia, tão bem-sucedida quanto a primeira.
Pontapé inicial desse projeto, a aventura Animais fantásticos e onde habitam saiu como livro em 2001 e agora inspira o primeiro filme – que já tem quatro sequências em desenvolvimento. Contando com um roteiro da própria autora – o primeiro de sua autoria –, o diretor David Yates (dos últimos quatro filmes de Harry Potter), o produtor David Heyman (de todos os oito filmes daquela franquia) e Stuart Craig (desenhista de produção de todos os oito também), trata-se de uma empreitada que navega nas conhecidas águas da magia, ainda que todos os personagens sejam novos, aprofundando o tema da zoologia bizarra que já frequentava a saga original.
 
O parentesco com o universo Harry Potter é garantido, pois o protagonista aqui é Newt Scamander (Eddie Redmayne), que os leitores mais atentos lembrarão como autor de um dos manuais usados pelo bruxinho em Hogwarts, cerca de 80 anos depois desta história – o que transforma este filme numa espécie de prequel. Magizoologista, o britânico Scamander chega à Nova York de 1926 com uma discreta maletinha – de onde podem sair, no entanto, os mais incríveis animais que a imaginação puder conceber.
 
Newt chega com uma missão secreta, envolvendo um de seus animais. São tempos pós-I Guerra, de muita intolerância, desigualdade, xenofobia, autoritarismo e traços de fundamentalismo religioso. Por isso, os bruxos vivem clandestinamente, tentando escapar à atenção dos humanos e severamente vigiados por agentes de seus próprios órgãos de segurança, como a MACUSA, sigla para Congresso Mágico dos EUA.
 
Evidentemente, a missão de Newt não está autorizada e ele é rapidamente detetado pela agente Tina Goldstein (Katherine Waterston), após um tremendo tumulto causado, num banco, por uma das criaturas de Newt, um bichinho obcecado por coisas brilhantes que escapou da maleta.
 
O incidente une os caminhos não só de Newt e Tina como de um humano não-bruxo – “não-maj”, no jargão local. Trata-se de Jacob Kowalski (Dan Fogler), um modesto operário que apenas buscava um financiamento bancário para seu sonho de abrir uma padaria e se viu envolvido na confusão.
 
Ao trio se soma a irmã de Tina, Queenie (Alison Sadol), capaz de ler pensamentos e que se toma de amores por Kowalski – por mais que romances mistos entre bruxos e humanos não sejam permitidos naquele tempo e lugar.
Além destas inúmeras referências evidentes a outros períodos históricos, inclusive o atual, a história joga com contrastes instigantes entre o apego do magizoologista por suas inusitadas criaturas, o que o transforma num precursor dos ecologistas, diante do rigor burocrata de Tina e dos integrantes da MACUSA e também do fanatismo antibruxo dos novos salemianos, liderados pela beata Mary Lou (Samantha Morton).
 
Na parte visual, funciona bem o 3D, especialmente para valorizar a fantástica fauna de Newt, produto de computação gráfica, animatronics e uso de marionetes. Mas a fotografia do premiado veterano Philippe Rousselot derrapa, no entanto, em algumas cenas muito escuras, dificultando a visualização. 
 
Como boa parte das aventuras de Harry Potter, Animais fantásticos e onde habitam explora personagens ambíguos, como o diretor de segurança mágica da MACUSA, P. Graves (Colin Farrell) e o garoto Creedence (Ezra Miller), um dos órfãos oprimidos pela beata. Não falta, igualmente, um toque contemporâneo sobre magnatas da imprensa, no caso, Henry Shaw (Jon Voight), e sua íntima relação com a política, através da figura de um filho senador (Josh Cowdery).
 
Curiosamente, a Nova York dos anos 1920 foi recriada inteiramente nos estúdios britânicos de Leavseden, nos arredores de Londres, com algumas locações extras em Liverpool. A rivalidade entre britânicos e norte-americanos é também um dos temperos de humor na história, como a disputa do título de melhor escola de bruxaria do mundo entre a yankee Ilvermorny e a britânica Hogwarts.
 
Mesmo ancorado no universo Harry Potter, o desafio de Animais fantásticos e onde habitam tem sua particularidade, já que não se trata mais de uma história infanto-juvenil com personagens idem, que cresciam com seus fãs a cada novo livro e filme. Aqui a identificação do público – também preferencialmente infanto-juvenil – tem que ocorrer pelas paixões destes personagens adultos, como o desprendido Newt e o divertido Kowalski, que se engajam na aventura com entusiasmo de criança grande. Johnny Depp, desta vez, é vilão e aparece só numa ponta de luxo – pelo menos, neste capítulo inaugural da franquia. 

Neusa Barbosa


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