Villa-Lobos - Uma Vida de Paixão

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País


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Crítica Cineweb

17/03/2003

Quem procura uma biografia linear de Heitor Villa-Lobos, que espere outro filme sobre o maior compositor brasileiro. Porque a obra de Zelito Viana pretende tudo, menos contar uma história cronológica e comportada do artista, morto em 1959. A narrativa dividida em sucessivos tempos, misturando momentos da infância (quando é interpretado por André Ricardo), da juventude (Marcos Palmeira) e da maturidade (Antonio Fagundes), nem sempre torna as coisas claras para os espectadores. Foi uma opção de risco para o diretor e que expõe a diferença entre as interpretações de Palmeira, filho de Zelito, e Fagundes, com uma superioridade inegável de Fagundes, ainda mais que lhe cabem os momentos mais comoventes, na velhice e no fim da vida de Villa-Lobos.

Zelito busca desvendar o homem por trás do músico - e a grandeza do segundo nem sempre corresponde à do primeiro, como bem concordaria a primeira mulher de Villa, a amargurada Lucília (Ana Beatriz Nogueira), que ele abandonou na maturidade por uma assistente 30 anos mais jovem (Letícia Spiller) e sempre se negou a conceder-lhe o desquite. A contradição, no entanto, parece secundária diante da música grandiosa do autor dos Choros e das Bachianas Brasileiras, incompreendido em sua época e criador de casos até com o pianista Arthur Rubinstein (Emílio de Mello), um dos primeiros a reconhecer sua originalidade.

Violão, violoncelo, clarinete, nada disso foi mistério para o músico carioca, que tocou em orquestras de cinema e de circo e percorreu o interior do País com tocadores mambembes, ouvindo o vento e os pássaros nos momentos de descanso. Inimigo dos "sobrenomes e dos popopôs", como gostava de dizer, Villa desafiou os padrões do gosto de sua época e pagou caro por isso, com o fracasso cercando seu início profissional. No Brasil e fora dele, as primeiras décadas do século ainda não tinham tantos ouvidos preparados assim para ouvir as suas composições, que mesclavam as sonoridades dos clássicos europeus com a música popular das ruas brasileiras, que desde menino Villa soubera absorver.

Ironicamente, apenas o governo autoritário de Getúlio Vargas foi capaz de dar-lhe um emprego estável num projeto educacional, simpatizando com o inegável nacionalismo do maestro. Mas isto garantiu-lhe também a pecha de "fundo musical do Estado Novo", atribuindo-lhe um colaboracionismo que, na verdade, não se comprova. Maior do que a polêmica e até do que o próprio filme, reafirma-se a grandeza da música de Villa-Lobos, com uma edição de som feita em Los Angeles por Joe Moss, que mixou discos para Tom Jobim e João Gilberto.

Neusa Barbosa


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