Mate-me, por favor

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Sinopse

Uma série de assassinatos, vitimando jovens, está apavorando a Barra da Tijuca, no Rio. Uma adolescente, Bia, fica morbidamente obcecada pelo assunto.


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Crítica Cineweb

12/09/2016

A primeira impressão pode ser de estranheza, mas como um retrato cinematográfico da adolescência não haveria de traduzir como é estranha é esta fase da vida? Valendo-se disto, Mate-me Por Favor, primeiro longa-metragem de Anita Rocha da Silveira aposta no cinema de gênero, com o qual sempre flertou em seus curtas – O Vampiro da Meio-Dia (2008), Handebol (2010) e Os Mortos-Vivos (2012) –, usando signos do terror e elementos sobrenaturais como metáforas de uma população amedrontada, para apresentar os dramas deste período turbulento.
 
Essa representação ocorre através de Bia (Valentina Herszage) e seu trio de amigas (Mari Oliveira, Julia Roliz e Dora Friend), cujo cotidiano é abalado, assim como de toda a escola e da comunidade, por uma série de assassinatos de jovens, quase sempre mulheres, na região da Barra da Tijuca.
 
É uma trama de mistério em que as reações dos personagens importam mais do que a sua simples resolução. Se os casos assustam os moradores do bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, por outro lado, gera um interesse mórbido na garota de 15 anos que conduz a narrativa ambivalente, entre o naturalismo e surrealismo, numa efervescência de desejos e sentimentos comuns aos adolescentes.
 
Selecionado no Festival do Rio, na Mostra de Cinema de São Paulo, no Panorama Internacional de Salvador e no Janela em Recife, que exibiram, em 2015, uma bem-vinda safra de filmes adolescentes, Mate-me... destacou-se, não só pelos prêmios que recebeu em quase todos estes festivais, mas pela rápida identificação que cria no público com aquele ambiente escolar. E isso não só por temas fundamentais que o longa aborda, como amor, inadequação, sexo, repressão, violência, dor, moral e religião, mas pela linguagem adolescente e elementos familiares até para quem já passou desta fase - como o handebol, o jogo “Cidade Dorme” e música sempre presente, aqui bem carioca com o flashback de funk melody dos anos 90 e músicas inéditas, compostas pelo Bonde do Rolê.
 
Uma delas, a impagável Vem Jesus, funk gospel cantado por uma jovem pastora (Carol Baptista), revela não só uma idiossincrasia da Barra e uma voz moralista, mas um mundo particular onde os adultos praticamente não existem. A mãe de Bia e João (Bernardo Marinho), seu soturno irmão, é apenas citada. Ouve-se somente vozes no rádio e alto-falantes e até os maiores de idade são retratados como parte desta juventude isolada, na cabeça dos próprios adolescentes, também pela falta de compreensão de quem está fora dela. Da mesma forma, a escolha pode significar uma ausência de perspectiva de futuro que se comunica com a cena final, igualmente fantasmagórica e libertadora sobre a passagem por esses anos de formação.
 
Silveira compõe um interessante equilíbrio entre a criação de um cotidiano realista e uma linguagem fantástica, misturando a uma estrutura de slasher teen o sarcasmo de Meninas Malvadas no retrato animalesco do ensino médio com o terror psicológico e onírico de David Lynch. Esses elementos funcionam na difícil tarefa de destrinchar o flerte dos jovens com a morte, que se alimentam da adrenalina de sempre estar perto dela para poderem se sentir vivos, um tema caro e pessoal para a diretora. Essa morbidez se traduz não só no vermelho que invade a tela pontualmente, mas na paleta de cores predominantemente roxa e no trabalho de Valentina Herszage com uma personagem tão complexa. Não é por menos que ela foi premiada no Rio, no Recife e, em conjunto com as outras meninas, em Veneza, com o Bisato d’Oro, prêmio paralelo concedido pela crítica independente.
 
Contudo, o fato de a produção só agora estrear em circuito comercial fortaleceu o seu discurso sobre a violência contra a mulher e a cultura do estupro, com toda a discussão que os temas agora suscitam na sociedade brasileira. No entanto, ao relembrar quase em uma citação direta o brutal assassinato da atriz Daniella Perez, em 1992, algo quase desconhecido para esta geração retratada na tela, mas que marcou a anterior, o filme reforça por quanto tempo este debate foi negligenciado.
 
Essa Barra da Tijuca, quase deserta quando ocorreu o caso, tornou-se uma região cheia de condomínios fechados, entre terrenos baldios e obras para a realização das Olimpíadas Rio 2016. A estranheza do bairro e as suas violentas transformações retratadas em Mate-me Por Favor vão de encontro à preocupação com o espaço urbano tão urgente para o cinema brasileiro atual. Por isso, ainda que o excesso de informação da obra possa causar ruído, não só representa o caos da adolescência, como também aponta, na pluralidade de leituras pertinentes já em seu debut, Anita como uma voz forte e promessa para o futuro.

Nayara Reynaud


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