Personal Shopper

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 0 votos

Vote aqui


Locais de filmagem


Sinopse

Jovem americana, que trabalha como personal shopper para uma modelo em Paris, vive obcecada pela possibilidade de um contato espírita com o irmão gêmeo, Lewis, que morreu, e com quem ela compartilhava uma deficiência cardíaca genética e uma promessa: quem morresse primeiro mandaria um sinal do além ao outro, já que ambos eram médiuns.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

20/05/2016

Existe, é óbvio, mais de uma maneira de se ler Personal Shopper, uma espécie de filme-extravagância do francês Olivier Assayas, ganhador do prêmio de direção, no Festival de Cannes do ano passado – dividido com o romeno Cristian Mungiu, por Bacalauréat. A primeira, e mais gritante, é como um filme sobrenatural não chega a ser um terror – embora para alguns possa ser um horror – mas está tudo lá: ectoplasma, personagem atormentada e afins. Outra maneira de ver o filme é como uma fantasmagoria sobre o prazer na sociedade do consumismo conspícuo – não à toa, a profissão da protagonista dá título ao filme.
 
Kristen Stewart interpreta Maureen, uma jovem americana morando em Paris pouco depois da morte de seu irmão gêmeo, decorrente de um problema cardíaco. Ela também é portadora dessa mesma condição, e poderá morrer de forma inesperada em breve, ou viver até chegar à velhice. É um mistério, assim como a capacidade mediúnica da personagem. Ela e seu irmão, Lewis, fizeram um pacto no qual quem morresse primeiro faria um contato com o outro. Então, ela o aguarda.
 
Enquanto isso, Maureen trabalha para uma supermodelo, Kyra (Nora von Waldstätten), para quem vai buscar roupas, acessórios e joias caras. Quando o apartamento da chefe está vazio – o que acontece muito, já que a mulher vive num tour constante pelo circuito da moda europeia –, a protagonista aproveita para assaltar a geladeira e experimentar as peças que não está autorizada a usar. Um dia, no entanto, encontra Ingo (Lars Eidinger), o namorado de Kyra, que revela ter sido dispensado, e acaba travando com ele um diálogo significativo.
 
Assayas começa seu filme como uma crônica do mundo contemporâneo dividido entre aparência e essência. Maureen compra, mas não é para ela. Maureen se comunica, mas raramente com alguém que está à sua frente. Quase nunca vê Kyra, e conversa por skype com um amigo que está no Oriente Médio. Seu único laço de amizade mais forte e sincero é com a namorada do irmão (Sigrid Bouaziz). Fantasmas e mais fantasmas a cercam. E as fantasmagorias se multiplicam quando a personagem começa a receber estranhas mensagens em seu celular, vindas de um número desconhecido. Seria Lewis? Seria alguém vivo ou morto?
 
Maureen visita constantemente a casa onde seu irmão viveu pela última vez. Um casal de amigos quer comprá-la, mas antes quer certificar-se de que não há nenhum fantasma ali. Seria a protagonista a quinta Caça-Fantasmas? Possivelmente, dada sua habilidade não apenas de entrar em contato com espíritos como também de os confortar, se necessário. Nesse momento, Assayas dá uma guinada no realismo quase cirúrgico do filme e se deixa levar por uma fantasia às vezes exagerada.
 
A primeira troca de mensagens se dá um trem rumo a Londres, em 2 de novembro – um dia depois do Dia de Finados, o que torna o filme e a correspondência entre Maureen e o desconhecido (vivo ou morto, tanto faz) ainda mais sombrios. De volta a Paris, essa pessoa incita a personagem a cometer pequenas transgressões prazerosas. Numa delas, ela veste um caro vestido que acabou de trazer para Kyra, enquanto a trilha sonora toca uma canção folclórica vienense dizendo que a morte não faz diferença entre ricos e pobres – o que transforma a cena numa espécie de vingancinha de classe fashion.
 
É impossível imaginar outra atriz que não Kristen no papel. Ela trabalhou com Assayas em Acima das Nuvens (que lhe rendeu o César de melhor coadjuvante, tornando-a a primeira americana a ganhar o prêmio), num papel não muito diferente, como a assistente de uma atriz. Aqui, a jovem veste uma máscara de sobriedade ao mesmo tempo que tormentas consomem sua mente – enquanto ela se transforma no verdadeiro fantasma que assombra o filme. E a atriz é tão fascinante que é impossível tirar os olhos dela até quando está digitando no celular.
 
Vaiado na sessão para a imprensa em Cannes, Personal Shopper é mais do que um longa experimental, é um experimento – transita entre gêneros sem fazer alarde, vai de filme de fantasma a suspense, passando por uma crônica da contemporaneidade, onde todos são, ao mesmo tempo, espectros e mercadorias sob a égide do consumo – não necessariamente de bens materiais. A busca pelo contato com Lewis, o uso das roupas e apartamento de Kyra, um misterioso convite para um quarto de hotel – todas são compensações simbólicas incapazes de aplacar o vazio existencial ou transformar as feições indecifráveis de Maureen. 

Alysson Oliveira


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança