Vou para Casa

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Crítica Cineweb

13/03/2003

As artes se observam uma à outra - o cinema está de olho no teatro e vice-versa, quer se trate de uma busca de referências, de pistas para sua própria reinvenção ou apenas de exercícios de estilo. Tudo isso se une neste fascinante trabalho do diretor português Manoel de Oliveira que, aos 93 anos, demonstra uma notável persistência não só em continuar trabalhando como na ousadia de permanecer fiel a si mesmo.

Diante de tantas sombras e urgências humanas povoando os filmes e a vida, cai como um bálsamo a refinada arte do mestre lusitano em Vou para Casa. Entremeando sua história com trechos de textos de Ionescu (O Rei Está Morto), William Shakespeare (A Tempestade) e Ulysses, de James Joyce, Oliveira apresenta seu protagonista Gilbert Valence (Michel Piccoli). Consagrado e no auge da carreira, ele perde a mulher, o filho e a nora num acidente de carro. Leva adiante sua vida, amparado apenas em sua arte e na criação do neto pequeno, que ele venera acima de tudo.

O convite para atuar num pequeno papel num filme americano (dirigido por John Malkovich, que faz uma ponta), tira Gilbert do habitual controle de seu cotidiano. É um instante de decisão sobre recuar ou não diante da pressão para desistir das próprias convicções - um tema que um cineasta como Oliveira, situado na contramão do cinema de grande espetáculo de Hollywood, conhece pelo avesso.

Detendo-se nesse conflito entre a fidelidade à sua formação e as concessões que lhe pede o comercialismo, Oliveira não esconde que Gilbert Valence, na verdade, é seu duplo. Ajuda-o neste retrato revelador o desempenho verdadeiramente cristalino de Michel Piccoli - com uma naturalidade tão extraordinária que sua perda do troféu de melhor ator no Festival de Cannes 2001 para o jovem Benoît Magimel, de A Professora de Piano soa mais do que nunca absurda. A excelência da performance de Piccoli, em todo caso, é daquelas que está acima de qualquer prêmio.

Uma cena, em particular, ergue essa ponte entre veteranos donos de seu métier que une Piccoli e Oliveira nesta empreitada. Alguém pergunta ao ator como ele está vivendo depois da perda de sua família. A câmera inventiva do diretor prefere mostrar, mais do que o rosto de seu protagonista, nada menos do que seus pés, calçados com um vistoso par de sapatos novos que ele adquiriu prazerosamente há pouco. Na movimentação espontânea destes pés o diretor mostra que o gosto pela vida venceu, encontrando novos instrumentos para seguir em frente.

Muitas leituras e pequenos prazeres são possíveis a partir da entrega a este filme iluminado, que tem caráter de síntese e testamento, embora felizmente não tenha sido o último trabalho de Oliveira. O infatigável mestre já fez o documentário Porto de Minha Infância e O Princípio da Incerteza, que participou da competição no Festival de Cannes 2002.

Cineweb-16/8/2002

Neusa Barbosa


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