De onde eu te vejo

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Sinopse

Com o fim do casamento, Fábio vai morar exatamente na frente do apartamento onde vivia com a ex-mulher Ana e a filha, uma adolescente prestes a sair de casa para estudar no interior. A proximidade do ex-casal cria atritos mas também a oportunidade de um novo olhar um sobre o outro.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

14/03/2016

Descortinar sua própria alma e a de seus personagens tão bem a ponto de fazer o mesmo com o público que assiste a sua obra é um dos sucessos do trabalho de um artista. Em seu quarto longa, Luiz Villaça consegue esse êxito. Se os protagonistas vividos por Denise Fraga e Domingos Montagner em De Onde Eu Te Vejo encontram na distância da separação e da observação a oportunidade de se enxergarem melhor enquanto indivíduos e também como (ex-)casal, o espectador tem no distanciamento da ficção a chance de localizar a identificação necessária com sua realidade nesta trama para se debruçar sobre a janela de seu dia-a-dia e refletir sobre suas relações com as pessoas, o trabalho e a cidade.
 
Sob a aparência de mais uma comédia romântica, o filme desconstrói qualquer barreira da plateia ao construir em bases sólidas o drama de uma arquiteta do Rio de Janeiro e de um jornalista de Ribeirão Preto, que, após se conhecerem em São Paulo e lá criarem uma vida conjunta por 20 anos, enfrentam o fim do casamento. Faz isso, porém, sem perder sua ternura e bom humor, pois nada menos do que inusitado, para dizer o mínimo, é o fato de Fábio (o paulistano Montagner) se mudar para um apartamento no prédio da frente de onde vivia com Ana (a carioca radicada na capital paulista Fraga).
 
Com vista completa do imóvel do ex-marido e vice-versa, o Big Brother mútuo piora por conta da partida iminente da filha deles (Manoela Aliperti), que passou no vestibular para estudar Veterinária em Botucatu, interior do estado. Além da questão do ninho vazio, a obra ainda abarca outros temas atuais e pertinentes, seja a crise do jornalismo impresso – ou da área como um todo –, representada na trajetória de Fábio e de sua amiga Olga (Marisa Orth), ou o crescimento urbano e expansão imobiliária nos dilemas profissionais de Ana e a relação dos dois com uma cidade sempre em transformação.
 
O feito do roteiro, escrito pelo cineasta com seus novos parceiros na TV, Leonardo Moreira e Rafael Gomes, é alinhar todas essas frentes de modo a evitar uma narrativa cansativa, diálogos rebuscados, personagens superficiais ou uma história sem humanidade. E a quebra da quarta parede, com Ana contando ao público sua visão sobre sua relação só contribui na aproximação com a plateia. Mais que isso: ainda que se atenha ao estrato social da classe média e apresente os pontos turísticos, o filme o faz de forma tão genuína, crítica e tocante, que se torna uma carta de amor a São Paulo bem mais sincera e superior ao recente Amor em Sampa.
 
Em conjunto, Denise e Domingos esbanjam química nas diferenças e cumplicidades de Ana e Fábio: ela, mística ou supersticiosa, quer sempre mudanças, enquanto ele prefere estabilidade e a segurança da rotina. A credibilidade que impõem ao casal transpassa para a família, completada por Manu, que se destaca como a filha adolescente, que pode sentir um pouco de vergonha dos pais em determinadas situações e ainda sim ser a conselheira e voz da razão dos adultos em crise. Se Orth exala humor, mesmo no seu tipo estressado, Laura Cardoso entrega uma atuação sempre magnífica em poucas cenas, como uma senhora que vive sozinha, em um mundo paralelo com seus passarinhos, numa das casas que a protagonista pretende demolir.
 
Em todos os personagens ecoa essa luta entre memória e renovação em que a obra se detém. Aos poucos, eles descobrem que o velho precisa se abrir para o novo, mas entendem que nem sempre as mudanças devem ser drásticas: naturalmente, o fluxo da vida corre nos relacionamentos, nas carreiras profissionais, nos hábitos cotidianos ou nos centros urbanos. Assim como a trilha sonora de Dimi Kireeff, cujos acordes de violões podem ser exagerados em um par de cenas, mas fluem de acordo com as emoções da história.
 
É claro que o maior sucesso da parceria do casal Luiz Villaça e Denise Fraga é o quadro Retrato Falado, exibido no Fantástico de 2000 a 2005. Mas talvez esta obra marque o ápice do amadurecimento do diretor junto a sua musa inspiradora. Na mistura de uma mise-en-scène teatral no jogo cênico entre os apartamentos com as referências ao clássico Se Meu Apartamento Falasse (1960), de Billy Wilder, aliada ao discreto trunfo cinematográfico dos efeitos especiais que transpõem, de maneira realística, as cenas gravadas em estúdio para dois prédios de uma rua de Higienópolis, o cineasta filma uma das várias histórias que São Paulo ou qualquer outra metrópole poderia contar.
 
No entanto, realiza isso sem menosprezar a inteligência do espectador, com um equilíbrio desconcertante entre comédia e drama, cuja síntese é a cena do carro, após os pais separados deixarem a filha na república. Leve e reflexiva, De Onde Eu Te Vejo é aquela dramédia capaz de deixar o público absorto ainda depois da sessão.

Nayara Reynaud


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