Do que vem antes

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Sinopse

Filipinas, 1972. Coisas misteriosas começam a acontecer num bairro distante. Ouvem-se lamentos vindos da floresta. Um homem é encontrado sangrando até a morte numa encruzilhada e casas são queimadas. As operações militares estão se tornando rotina. Milícias violentas comandam o interior do país. O ditador Ferdinand Marcos anuncia o decreto n° 1081, colocando todo o país sob lei marcial e mergulhando as Filipinas em seu período mais obscuro.


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Crtica Cineweb

24/02/2016

Entre aqueles cinéfilos mais experimentados em cinematografias de vários lugares do mundo, é sabido que assistir a um longa de Lav Diaz significa que parte de seu dia já está comprometido. Contudo, quem ultrapassa a barreira da desconfiança e do cansaço causada pelas suas longuíssimas obras, cujo recorde foi quase dez horas de duração, sabe que aquelas centenas de minutos de filme não são desperdiçadas na tela e que o tempo não foi perdido.
 
O cineasta filipino, que era conhecido por aqui só em festivais – inclusive, ganhou uma retrospectiva na edição de 2013 da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo –, estreou comercialmente no Brasil em dezembro passado, com o relativamente “curto” Norte, o Fim da História (2013, 250 min.). Volta às salas brasileiras com Do Que Vem Antes, cujas cinco horas e meia de película se justificam como recurso para captar o ciclo contínuo da vida de seus personagens e o ritmo real de suas reações e/ou transformações, a fim de transportar isso da maneira mais fidedigna ao público.
 
Consagrado com vários prêmios no Festival de Locarno de 2014 e apontado pelo público como melhor filme internacional na Mostra daquele mesmo ano, a obra faz um resgate histórico de um passado não muito longínquo na história das Filipinas, recriando em uma comunidade o período anterior ao decreto da lei marcial, em 1972, pelo presidente Ferdinand Marcos (que governara de 1965 a 1986), inaugurando sua fase ditatorial e sua guerra contra as guerrilhas comunistas e islâmicas, que ainda atuam no país, hoje democrático. Tal prenúncio de algo terrivelmente grandioso por vir recorda A Fita Branca (2009), de Michael Haneke, mas o registro aqui é muito mais cru.
 
Compreendendo os três anos antes do decreto, a produção passa uma hora mostrando a dinâmica e as tradições – o que dizer daquele longo ritual de lamentação de uma mãe, filmado com uma respeitosa paciência e compaixão – daquele afastado bairro, um pedaço de terra entre o litoral e a floresta, mas só depois disso o espectador começa a reconhecer cada personagem dentro de suas questões. Entre o retraído menino Hakob (Reynan Abcede) e seu pai de criação, o velho Sito (Perry Dizon, um dos vários habituès do diretor no elenco), o sorrateiro fabricante de vinhos Tony (Roeder), a intrometida mascate Heding (Mailes Kanapi) e outras figuras do lugarejo, quem se destaca são as duas irmãs que sintetizam o sincretismo na religiosidade local. A prestativa e dedicada Itang (Hazel Orencio) cuida da caçula Joselina (Karenina Haniel), cujas deficiências mentais e físicas atraem a população local, que as considera curandeiras.
 
Enquanto isso, a região é assombrada por eventos misteriosos, como cabanas sendo queimadas e mortes sem vestígios de pessoas e vacas, que prenunciam o mal que virá a seguir na localidade, onde as chuvas são constantes. Ele vem só mais à frente na trama, com a chegada dos militares levando a promessa de proteção, que, desde início, é vista como ameaça para a comunidade, que assiste à sua própria derrocada com a sombra da ditadura se aproximando.
 
Diaz apresenta este microcosmo que sofre a pressão externa, traduzida aqui na força das ondas destacada em alguns planos, mas que também se autoconsome com as paixões, falhas e mentiras de seus habitantes, embora o cineasta nunca lhes imponha o peso da condenação moral, apenas de sua humanidade. Por isso, volta ao preto e branco não só para reforçar a ideia de que a obra é “uma memória do meu país”, como alega nos créditos – e algo que ele retoma em seu novo trabalho, A Lullaby to the Sorrowful Mystery (2016, 488 min.), exibido e premiado no Festival de Berlim neste mês. O recurso também corrobora o discurso de que o longa é, como declarado em um voice over, a “memória de um cataclismo”: da sociedade, não apenas filipina, da moral e da vida rural, entre outras possíveis acepções.
 
Contudo, é na simplicidade e brutalidade do cotidiano e da natureza registrados pela sofisticada contemplação de sua câmera – além de dirigir e roteirizar, Diaz é responsável pela fotografia e edição – que reside a força de suas obras, das quais Do Que Vem Antes é uma das mais significantes e verdadeiras do cinema contemporâneo mundial.

Nayara Reynaud


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