Creed: Nascido para Lutar

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Filho ilegítimo de um campeão de boxe, Adonis Johnson vive uma infância difícil depois da morte da mãe. Adotado pela viúva do pai, tem uma vida confortável, mas sonha com uma carreira no boxe, o que contraria a madrasta, que não quer vê-lo repetir a tragédia do marido. Mesmo assim, o rapaz procura um velho amigo do pai, Rocky Balboa, tentando convencê-lo a tornar-se seu treinador.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

11/01/2016

Assim como a trajetória de seu herói, Rocky: Um Lutador, uma modesta produção de pouco mais de US$ 1 milhão de dólares, roteirizada e protagonizada pelo então desconhecido ator Sylvester Stallone, surpreendeu a todos. Tornou-se a maior bilheteria de 1976 nos Estados Unidos e levou três estatuetas no Oscar do ano seguinte: além da direção de John G. Avildsen e a edição premiada, sagrou-se como melhor filme, tendo Taxi Driver, Rede de Intrigas e Todos os Homens do Presidente como concorrentes naquela forte edição – e, apesar de qualquer questionamento sobre o prêmio, é indiscutível que o longa se tornou um clássico junto com os outros.
 
Sequências foram feitas, quase sempre, no intervalo de três anos e o caminho da série se misturou com o do fictício boxeador da Filadélfia, entre altos e baixos. Reparando o fracasso de seu antecessor, realizado em 1990, o decente Rocky Balboa (2006) parecia dar o fim digno ao icônico personagem surgido três décadas antes, após seis aparições no cinema. Mas, eis que o Garanhão Italiano volta às telas, não mais dentro dos ringues, como há 40 anos, mas no coadjuvante papel de treinador do filho de seu maior adversário e, posteriormente, amigo e treinador, Apollo Creed, interpretado por Carl Weathers do primeiro ao quarto longa. Stallone foi indicado ao Oscar de coadjuvante e venceu o Globo de Ouro na mesma categoria.
 
Se a ideia do spin-off Creed: Nascido para Lutar parecia interessante, também gerava muito descrédito quanto à possibilidade de resultar num produto requentado ou descaracterizado. Porém, em uma temporada frutífera ao resgate de velhas franquias – vide a volta dos universos de Mad Max, Jurassic Park e Star Wars –, a saga de Rocky igualmente ganha fôlego na grata surpresa desta mistura de continuação e recomeço, à semelhança de seu antigo protagonista e do atual.
 
Em seu segundo longa, o jovem diretor Ryan Coogler repete a parceria bem-sucedida com o ator Michael B. Jordan em Fruitvale Station: A Última Parada (2013), premiado em Cannes, Sundance e no Spirit Awards, atualizando a história de perseverança e redenção de um azarão no provocativo mundo do boxe para o século XXI e uma nova plateia.
 
O “vira-lata” em questão é Adonis (Michael B. Jordan), filho bastardo de Apollo Creed, nascido após a morte do antigo campeão dos pesos-pesados na luta, mostrada em Rocky IV (1985), contra um implacável oponente soviético. Um prólogo mostra que, depois de passar parte de sua infância em reformatórios por causa da morte de sua mãe, o garoto é adotado justamente pela abastada viúva do boxeador. Mary Anne Creed (Phylicia Rashad) não lhe deixou faltar nada, a não ser a realização do inato desejo do rapaz de seguir o caminho trilhado pelo pai que não conhecera, por medo de ele ter o mesmo trágico destino.
 
Porém, Adonis “Hollywood” Johnson deixa um ótimo emprego num escritório e sua boa vida em Los Angeles para ir à Filadélfia – cidade novamente retratada com carinho e novos detalhes – e perseguir seu sonho de se tornar um lutador, o que inclui insistir e muito para que Rocky, velho amigo de Apollo e agora apenas dono de um restaurante italiano, o treine.
 
É visível no roteiro desenvolvido por Coogler e pelo estreante Aaron Covington a estrutura da história original, fazendo homenagens com citações e elementos de todos os capítulos da franquia. Além da famosa escadaria do Museu de Arte da Filadélfia, com seus 72 degraus presentes desde o primeiro filme, há as galinhas do segundo, a estátua “inaugurada” no terceiro, a morte do quarto como gatilho da recente trama, Balboa como treinador de um pupilo no malfadado quinto e o ristoranti Adrian’s do sexto, por exemplo.
 
Contudo, a reverência que agrada aos fãs está sempre a serviço da narrativa inédita e compreensível para iniciantes, a exemplo dos inesquecíveis acordes de Bill Conti, reconhecíveis até para quem não assistiu a nenhum dos longas da série, que só pontuam em momentos-chave as novas composições do sueco Ludwig Göransson, que aposta em uma trilha sonora repleta de hip hop e eletro R&B, mais condizente com os novos personagens.
 
Da mesma maneira, os roteiristas criam um protagonista mais complexo dentro da semelhante trajetória, em que os conflitos internos de uma origem bastarda, o início tardio, a ausência e a sombra do pai são intensificados no paradoxo de uma infância humilde e turbulenta com uma criação posterior cercada de riqueza e estabilidade. Tudo isso, um prato cheio para Jordan estabelecer mais uma vez seu nome com uma interpretação digna de nota.
 
Ao seu lado, Tessa Thompson, de Selma: Uma Luta Pela Igualdade, chama a atenção como Bianca, sua vizinha e interesse romântico, que apresenta em sua força e independência um contraste muito grande em relação à Adrian de Talia Shire, principalmente na produção inicial. Nada contra a genuína timidez da irmã oprimida de Paulie, vivido por Burt Young nos anteriores, mas a pretensa cantora de agora indica as mudanças, em especial de autoconsciência, em relação ao papel da mulher na sociedade atual. Igualmente, Creed redime algumas questões raciais da franquia, porém, de uma forma mais implícita do que Coogler fez na clara denúncia que é Fruitvale Station.
 
E se a velhice foi tratada de maneira mais incongruente no antecessor, aqui a idade ganha peso não só sobre o corpo e sim no emocional do sexagenário Balboa, ao ver seus entes queridos irem embora. Tendo à frente um plot twist melodramático que poderia ser uma bomba, Stallone contorna o problema ao imprimir enorme sinceridade em Rocky, um tom abaixo do exagero que marcou o famoso personagem que amadureceu com o tempo aos olhos do público. O astro, reconhecido por sua singela e tocante atuação com o Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante, tem ainda o mérito de abdicar de sua criação – é o primeiro longa que ele não roteiriza nem dirige – para entregá-la à visão de um jovem cineasta independente.
 
Se alguma expectativa não é suprida na luta do clímax, não é por uma falha necessariamente da sequência cuja opulência de ambientação em um estádio inglês, mise-en-scène já testada e rápida edição fazem jus ao grandioso entretenimento característico da série. Isso acontece porque o próprio Coogler eleva o nível pouco antes, no confronto em que Adonis adentra o boxe profissional como meio-pesado. Filmado em plano-sequência e com um desenho de som imersivo, ele põe o espectador dentro do ringue de maneira mais efetiva e emocionante do que os planos em primeira pessoa do recente Nocaute, criando uma experiência cinematográfica incrível.
 
O bom trabalho do diretor não apenas aumentou seus créditos para o próximo trabalho, a nova produção da Marvel Pantera Negra (2018), como também garantiu uma continuação em 2017 para este filme. Se o passado de Rocky está aqui, literalmente como uma projeção na parede, Creed tem força própria para se sobrepor a uma simples reprodução. 

Nayara Reynaud


Trailer


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