Macbeth: Ambição e Guerra

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Sinopse

Quando ouve de um grupo de bruxas a profecia de que será rei da Escócia, o general Macbeth, com a ajuda de sua mulher, arma um plano para subir ao poder. Seu sucesso, no entanto, deixa um rastro de sangue pelo caminho.


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Crítica Cineweb

22/12/2015

“Seja violento, ousado e firme” é o conselho dado por uma das bruxas a Macbeth (Michael Fassbender), quando ele já é rei. A sugestão parece não ter servido apenas ao personagem, mas também ao diretor australiano Justin Kurzel, que não se esquiva de imprimir a sua adaptação, Macbeth; ambição e guerra, muito som e fúria com imagens sempre poderosas, e, não por acaso, borradas de vermelho. Em seu segundo longa, o cineasta, que competiu em Cannes, mostra uma convicção como poucos, adaptando Shakespeare de maneira respeitosa, mas sem render-se à reverência.
 
Se a trama – adaptada para o cinema por nomes como Orson Welles, Roman Polanski e Akira Kurosawa, passando por uma equivocada versão brasileira de Viniicius Coimbra, A Floresta que se Move – é relativamente conhecida, Kurzel, trabalhando a partir de um roteiro de Jacob Koskoff, Michael Lesslie e Todd Louiso, dá sua interpretação da peça, com muito sangue, barro e estilo. Filmadas na Escócia da história original, as  imagens são fortes e carregadas de beleza e significado com a fotografia assinada por Adam Arkapaw (da primeira temporada de True Detective).
 
Kurzel abre mão de uma cena aqui e ali, mas mantém o peso da peça e a tormenta de seus protagonistas. Estimulado por sua mulher (Marion Cotillard), o nobre guerreiro Macbeth dispõe-se a cumprir a profecia de um quarteto de bruxas (uma delas, uma criança), de que um dia será o rei da Escócia. O diretor não se deixa levar por simplificações, mas busca uma linha que, num fluxo contínuo, impulsiona a trama, criando assim camadas para os personagens e os atos da tragédia anunciada.
 
Numa Escócia do século XI que mais parece um reino de uma fantasia obscura, o filme começa com Macbeth e sua Lady chorando a morte do filho pequeno, que será cremado numa pira. Crianças, aliás, têm um papel fundamental nesta adaptação, pontuando a narrativa primeiro como um motivo, até chegar ao final que sugere a continuidade da ambição e disputa de poder. Macbeth, no entanto, parece começar o longa com uma certa bondade que, aos poucos, na vida e nas batalhas, é consumida até sobrar um vazio, alimentado pela ambição de sua mulher. Esta, por sua vez, parece fazer o caminho inverso: começa maligna e manipuladora, sem qualquer escrúpulo usando o marido, até ser devastada pela ambição que transferiu para ele.
 
É uma opção ousada do diretor e da atriz, que se mostra bastante diferente daquele tipo de Lady Macbeth que estamos acostumados a ver. Esta é uma personagem que se recolhe, com um crescimento introjetado, que, ao invés de explodir, implode. O monólogo mais famoso – no qual, novamente, se esperam som e fúria – é feito quase num sussurro, num tom de derrota, apesar da vitória dos objetivos do marido. É um plano contínuo, boa parte fechado no rosto dela, o que traduz uma comunhão perfeita entre diretor e atriz.
 
A rigor, Michael Fassbender pode até não parecer uma “primeira opção” que vem à cabeça quando se pensa em Macbeth – mas, como é de se esperar, ele cresce no personagem, encontrando uma humanidade longe do ser meramente manipulável que ele pode ser numa determinada chave. É preciso criar uma personalidade forte para que não fique à sombra de sua Lady.
 
Na paleta de cores, Kurzel encontra no vermelho-sangue a cor predominante, a ponto de manchar toda a tela no clímax de Macbeth: Ambição e Guerra. A trilha sonora marcante de Jed Kurzel, quase onipresente, nem por isso se esvazia na construção eficiente do clima sombrio do filme.

Ainda no começo da peça, Macbeth, talvez ingenuamente, diz que se o destino o quer como rei, bem, ele será rei. Existe destino ou somos nós que o construímos? Até que ponto um homem bom – ele dá sinais de certa generosidade ou compaixão no começo do filme – pode se tornar mau? Kurzel não se dispõe nem um pouco a responder perguntas como essa – nem deveria – mas, sim, a investigar causas e condições históricas que permitem que elas sejam formuladas.

Alysson Oliveira


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