Califórnia

Ficha técnica


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País


Sinopse

Nos anos 80, Teca é uma adolescente cheia de energia e de planos. Seu grande sonho é fazer uma viagem pela Califórnia com o tio Carlos, jornalista musical e seu ídolo pessoal. Quando ele volta de uma viagem, porém, está diferente e tem um segredo.


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Crítica Cineweb

02/12/2015

Seu primeiro filme, Person (2007), foi um documentário de uma filha resgatando a memória do pai, o cineasta Luiz Sérgio Person, responsável pelo clássico São Paulo S. A. (1965). Seu trabalho seguinte é uma estreia na ficção de uma diretora que redescobre sua própria adolescência no despertar de um novo rumo de sua carreira. Embora todos lembrem da Marina Person VJ da MTV Brasil por 18 anos e apresentadora do Metrópolis na TV Cultura até este ano, sua formação familiar e acadêmica é em cinema e Califórnia (2015) é seu cartão de visitas que reafirma seu empenho em voltar à área em que sempre quis estar.
 
Por isso, mais uma vez faz uma obra muito pessoal, calcada em suas experiências juvenis, algo muito cristalino na ambientação feita pelo casting, principalmente da protagonista vivida por Clara Gallo, uma espécie de alter ego dela, além da escolha de locações e, obviamente, da trilha sonora. E nem seria necessário uma referência inicial à MTV norte-americana, a primeira, criada em 1981, quando se dá o prólogo do longa, para apontar isso. Sua formação musical é deliciosamente jogada nos ouvidos do público, indo dos nacionais Metrô, Kid Abelha e Titãs –Paulo Miklos, integrante da banda que surpreende como ator desde O Invasor (2002), por sinal, faz o pai da personagem principal – aos britânicos David Bowie, The Cure, The Smiths e Echo & the Bunnymen.
 
É exatamente na abordagem cheia de sutilezas que faz da doença que reside o principal mérito do filme, ao ser apresentada do mesmo modo como era tratada pelas pessoas na época: sem nome, sem conhecimento e com muito preconceito. Para isso, Marina usa sempre a perspectiva da protagonista Estela, (Clara Gallo), ou simplesmente Teca. No último ano do ensino médio, a vida da garota é um turbilhão e, por seguir seu ponto de vista, há o que fique sobreposto em favor de outras tramas. Mas a escolha é condizente com a proposta da obra e não prejudica sua apreensão.
 
Durante toda a adolescência, a personagem alimenta o sonho de viajar pela Califórnia com o seu tio Carlos (Caio Blat), repórter e correspondente musical a quem idolatra, abdicando até de sua festa de debutantes para que os pais (Virgínia Cavendish, de O Auto da Compadecida, interpreta a mãe dela) permitissem a realização de seu desejo quando terminasse o colégio. Quando a viagem está prestes a concretizar-se, seu herói volta do exterior diferente – e através do ponto de vista da sobrinha, o espectador vai compreendendo o que o tio está sofrendo, apesar de não ser tão expressado verbalmente. O retorno dele culmina numa série de acontecimentos na vida da jovem, que está apaixonada pelo surfista Xande (Giovanni Gallo) e tem a ânsia de decifrar o novo aluno do colégio, o gótico JM (Caio Horowicz).
 
A estreante Clara Gallo deixa sua marca logo no papel principal, sendo premiada no Mix Brasil 2015 e impulsionando a chance de novos trabalhos em breve. Conta nisso a construção da relação entre tio e sobrinha construída no texto e a parceria entre ela e o sempre ótimo Caio Blat, de Bróder (2010) e tantos outros bons filmes. Vindo de trabalhos da TV, como a série juvenil Família Imperial (2012-2013), Caio Horowicz, premiado por sua atuação no último Festival do Rio, é precisamente delicado e sedutor com seu tipo outsider. Enquanto Giovanni Gallo não repete a composição realizada no excelente De Menor (2013) e, por vezes, cai no estereótipo de seu personagem, embora o roteiro de Person com Francisco Guarnieri e Mariana Veríssimo não lhe dê mais opções.
 
Além da trilha sonora, a pesquisa de reconstrução de época se reflete também na representação fiel da direção de arte de Ana Mara Abreu, do figurino de Leticia Barbieri e da fotografia de Flora Dias, suave e “suja” como os vídeos do período. Os anos 80, aliás, foram retratados recentemente no baiano Depois da Chuva (2013). Mas se aquele centrava-se em uma busca de identidade por um viés mais político e de experimentação no underground, o alternativo deste é muito mais acessível, reconhecível e nostálgico por quem viveu ou não aquela década.
 
Marina constrói um coming of age que segue o caminho seguro dos filmes juvenis que querem fugir dos lugares-comuns do gênero e que já criaram seus próprios clichês. Mas isso não diminui a empatia criada pela sinceridade e delicadeza da história, que passa uma naturalidade em alívios cômicos mais claros, como nas simpatias da empregada, em uma notável deste ano, apesar de pequena, performance de Gilda Nomacce. O troféu do Prêmio da Juventude na Mostra, escolhido por estudantes, revela o quanto a produção é capaz de dialogar facilmente com quem foi adolescente nos anos 80, 90 ou no século XXI.

Nayara Reynaud


Trailer


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