À beira-mar

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 1 votos

Vote aqui


País


Sinopse

Vanessa e Roland são casados há algum tempo e vivem uma crise matrimonial. Resolvem partir para uma viagem ao sul da França, onde Roland espera superar também seu bloqueio criativo como escritor.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

01/12/2015

Saindo da temática de guerra que serviu de fonte aos seus dois primeiros longas, Angelina Jolie Pitt continua em um território tão minado quanto: em À Beira-Mar (2015), o campo de batalha é do amor, mais especificamente de um casamento em crise.
 
Após seu début no modesto romance dramático sobre a guerra da Bósnia em Na Terra de Amor e Ódio (2011) e sua experiência em uma superprodução de tom épico, Invencível (2014), biografia do atleta olímpico Louis Zamperini, a atriz e realizadora muda totalmente o curso, apostando em um cinema mais autoral, com forte influência dos filmes europeus dos anos 60 e 70. É justamente em meados da década setentista que se situa a história do par fictício, interpretado pela própria diretora e seu marido Brad Pitt, reunidos em cena novamente após 10 anos do lançamento de Sr. & Sra. Smith (2005), quando os dois iniciaram o relacionamento mais badalado de Hollywood dos últimos tempos.
 
Se a apresentação dos protagonistas é feita de forma glamourosa, que remonta à época áurea das estrelas e casais da indústria cinematográfica norte-americana, o que vem em seguida é a desconstrução disso, embora a atriz nunca perca a pose, mesmo no auge da depressão de sua personagem. A viagem de Roland (Brad Pitt) e da esposa Vanessa (Angelina Jolie Pitt) para a costa sul da França – as gravações foram realizadas, na realidade, na ilha de Gozo, em Malta – não são férias e sim uma busca de salvação para o seu casamento. Além da crise conjugal, ele ainda vê no novo cenário uma forma de buscar inspiração e pôr fim a um bloqueio criativo que o faz questionar sua carreira como escritor.
 
A apatia e desconexão entre ambos causam uma frieza e passividade inicial que tornam o primeiro ato mais maçante, apesar de justificável. É curioso que, no entanto, a trilha sonora de Gabriel Yared, ganhador do Oscar por O Paciente Inglês (1996), peque pelo exagero logo aí, destoando no começo e encontrando seu caminho complementar à narrativa somente mais à frente no longa. De certa maneira, isso ocorre concomitantemente à introdução do voyeurismo na trama, que ganha ritmo a partir disto, pois é o gatilho para que os cônjuges finalmente comecem a expor e compartilhar suas aflições e dificuldades no relacionamento, embora as consequências disso sejam tanto positivas como negativas para os dois.
 
A chegada de um casal em lua-de-mel ao hotel, justamente no quarto ao lado, é o contraponto à situação deles, pois a jovialidade, empolgação e envolvimento de Lea (Mélanie Laurent, que trabalhou com Pitt em Bastardos Inglórios) e François (Melvil Poupaud, de Laurence Anyways) escancara um estágio a que o casamento de Roland e Vanessa parece não ter mais condições de voltar. Em conjunto, essa gritante diferença é usada como representação de um abismo entre gerações, com o olhar daquela de que os dois principais fazem parte, ainda arraigada em valores conservadores em relação à família; para a outra, simbolizada nos recém-casados, já resultante da consolidação da revolução sexual daquelas décadas.
 
Contudo, ao transformar os protagonistas também em espectadores, deste e de outros filmes, Jolie Pitt estabelece uma relação entre personagens e público quando ambos projetam e aliviam suas frustrações na felicidade que veem pelo “buraco” da tela. Um intercâmbio que seria mais intenso se a maior destreza que agora demonstra na direção se espelhasse no roteiro, o vilão neste caso.
 
Com uma obra centrada basicamente em duas figuras que passam, na maior parte do tempo, separadas, é louvável o domínio das elipses temporais e espaciais através do trabalho dela, da montagem de Martin Pensa e Patricia Rommel e do desenho de som de Becky Sullivan e David Stephenson. Frente à fragilidade e, às vezes, histeria de Vanessa, a perseverança de Roland na relação é, ao mesmo tempo, invejável e duvidosa. Mas é a naturalidade que Brad consegue imprimir ao personagem um tanto incompleto que impele a plateia a dar uma nova chance ao seu par, já que o sofrimento dela é muito teatral e fotográfico.
 
Mais do que qualquer comparação entre os casamentos real e fictício e até a motivação explícita de tratar sobre o luto depois da perda de sua mãe, enxerga-se no trabalho de Angelina uma grande vontade de reafirmação, enquanto mulher e estrela, especialmente com a utilização de seu próprio corpo exposto. Imageticamente, o filme é sedutor e a fotografia imersiva e vintage de Christian Berger, parceiro constante de Michael Haneke, dá uma imensa contribuição neste sentido, com o azul do mar ganhando vida entre os tons pastéis das pedras e construções, destacados pela luz natural mediterrânea.
 
Elo fraco do longa, o script da cineasta expõe, por vezes, subtextos em diálogos que soam artificiais e desconfiam da inteligência do público, além de perder ritmo no terceiro ato, quando toda a eficiência da tensão gerada pelo relacionamento deles se esvai com a justificativa dada ao final para tal crise. Muitos ficarão decepcionados, considerando que muita tempestade em copo d’água é feita durante toda a história, pois o que era até então desconhecido se mantinha mais interessante e a ambiguidade seria, talvez, uma melhor solução. Porém, quando Roland diz a Vanessa que eles precisam parar de ser tão estúpidos, há um sarcasmo, intencional ou não, que define não só o espírito da obra como ironiza a tendência humana de supervalorizar seus próprios problemas.

Nayara Reynaud


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança